POV/SKY
Meu pai terminou de falar, mas eu continuei ouvindo sua voz dentro da cabeça.
Durante anos, imaginei como seria escutá-lo outra vez. Em alguns sonhos, ele me chamava pelo nome; em outros, conversava comigo enquanto eu desenhava, como fazia quando eu era criança. Depois que soube do incêndio, tive medo de que até essas lembranças começassem a desaparecer.
Agora ele estava sentado a poucos metros de mim, com um copo de água entre as mãos e uma muleta apoiada perto da cadeira. Seu rosto estava cansado, e o profissional que o acompanhava observava seus movimentos, mas meu pai tinha falado. Tinha olhado para mim, tocado meu rosto e dito que estava vivo.
Eu ainda sentia o calor da mão dele na minha pele.
Queria voltar para perto dele e abraçá-lo direito. Queria encostar a cabeça em seu peito e ficar ali até conseguir acreditar que não precisaríamos nos separar outra vez. Mas o juiz ainda conversava com os advogados, e eu precisava permanecer sentada.
Moon segurava minha mão com tanta força que meus dedos começavam a doer. Não pedi que soltasse. Minha irmã também tremia, e as lágrimas continuavam escorrendo pelo seu rosto, mesmo depois de ela enxugá-las várias vezes.
— Ele está aqui — murmurei.
Ela assentiu e apertou meus dedos outra vez.
— Eu vi, Sky. Ele falou com a gente.
Olhei para o meu pai. Ele ergueu os olhos na mesma hora, como se também tivesse dificuldade para parar de nos procurar. Sorriu, e senti o coração acelerar de novo.
Rocco se aproximou durante uma pausa e se abaixou ao meu lado.
— Você está conseguindo respirar, amor?
— Estou tentando.
Ele passou a mão pelas minhas costas. Eu sabia que ainda precisaríamos conversar. Sabia que ele e Christian tinham guardado a verdade enquanto Moon e eu chorávamos a morte do nosso pai. Parte de mim sentia raiva por isso, e eu não ia fingir que não.
Mas, naquele momento, a felicidade era tão grande que não conseguia pensar em mais nada além do homem sentado à minha frente.
— Eu quero ficar perto dele — falei.
Rocco olhou para meu pai e depois voltou a me encarar.
— Assim que terminarem aqui, você vai.
Assenti. Ele enxugou uma lágrima do meu rosto e beijou minha testa antes de se levantar.
Nosso advogado se aproximou com a pasta, acompanhado pelos outros profissionais. Houve uma nova pausa para que os termos da proposta fossem apresentados, e meu pai participou da conversa com a ajuda da pessoa que o acompanhava.
Eu tinha visto aqueles homens negarem o que fizeram, discutirem e tentarem transferir a responsabilidade um para o outro. Ainda assim, foi estranho ouvir nosso advogado dizer que havia uma proposta concreta para encerrar a parte patrimonial.
— Ninguém precisa aceitar se não estiver de acordo — ele explicou. — Os valores foram negociados separadamente, considerando os documentos reunidos, os rendimentos discutidos e a atualização dos prejuízos ao longo dos anos.
Meu pai pegou as folhas. Suas mãos ainda não tinham a firmeza de antes, então Moon se aproximou para ajudá-lo a segurá-las. Fiquei observando os dois por alguns segundos, emocionada com a facilidade que minha irmã tinha de perceber quando ele precisava de alguma coisa.
O advogado apontou para a primeira parte.
— Gouveia e a empresa dele pagariam oito milhões de reais. Esse valor considera as retenções, os rendimentos relacionados ao patrimônio da família e os prejuízos discutidos. A cobrança de oitocentos e quarenta mil contra Sky será encerrada, sem que ela reconheça essa dívida.
Olhei para ele.
— Encerrada?
— Sim. O documento que você assinou aos quinze anos, sem representação adequada, não poderá continuar sendo usado para sustentar aquela cobrança.
Senti o chão firme sob meus pés, mas foi como se meu corpo demorasse a compreender onde estava.
Oitocentos e quarenta mil reais.
Eu lembrava daquela pasta sobre a mesa de Paulo. Dos recibos, da planilha e da maneira como ele falou do dinheiro que dizia ter gasto conosco. Lembrava da minha mão tremendo enquanto eu tentava entender como poderia pagar.
Saí daquela sala sem emprego, sem meu noivo e com a sensação de que tudo o que tinha feito até então não servia para nada.
— E o terreno? — perguntei.
— A regularização dos direitos sobre o imóvel e os documentos da sociedade também estão previstos. Tudo ficará discriminado.
Meu pai levantou os olhos para mim. Seu rosto estava cansado, mas havia uma atenção que eu não via há tanto tempo que precisei conter outra onda de choro.
O advogado passou para a folha seguinte.


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