POV/MOON
Minha irmã se levantou antes de mim.
Vi Rocco acompanhá-la, pronto para segurá-la, enquanto eu esbarrava na cadeira tentando sair. Christian me amparou pelo cotovelo, mas meu corpo já estava inclinado na direção da porta.
Meu pai estava ali.
O homem que eu vi ser enterrado estava de pé, apoiado numa muleta, olhando para nós.
— Pai?
Minha voz saiu fina, quase sem ar. Esperei que ele respondesse outra vez, que repetisse aquele cumprimento simples, qualquer coisa que me ajudasse a acreditar.
Sky chegou perto o suficiente para tocar seu braço. Seus dedos se fecharam no tecido da camisa, e meu pai levou a mão ao rosto dela.
— Pai… — ela repetiu, chorando.
Dei mais um passo, mas a voz do juiz interrompeu o movimento.
— Por favor, vamos manter a ordem. Senhoras, preciso que retornem aos seus lugares para que possamos prosseguir.
Parei sem conseguir desviar os olhos.
Meu pai também chorava.
Ele estava chorando e movimentando a mão sobre o rosto da minha irmã. Durante anos, eu esperei por um gesto muito menor do que aquele. Um dedo se mexendo, um aperto, alguma resposta que nos dissesse que ele continuava conosco.
Agora precisava voltar para uma cadeira.
— Sky — Rocco chamou baixinho. — Vem comigo.
Ela negou com a cabeça, ainda segurando a camisa de nosso pai.
— Ele está aqui.
A frase quase não saiu.
— Está — Rocco respondeu. — Eu sei. Ele vai ficar aqui. Depois vamos explicar tudo.
Sky olhou para ele.
Reconheci a pergunta antes que minha irmã conseguisse fazê-la.
— Você sabia?
Rocco assentiu, com os olhos molhados.
Sky soltou a camisa de nosso pai devagar. Parecia que os dedos não queriam obedecer.
Christian se aproximou de mim.
— Amor, vamos sentar.
Virei o rosto para ele.
— Você também?
Ele não tentou fingir que não compreendeu.
— Sim.
Senti uma pressão dolorosa no peito. Eu tinha chorado na frente dele. Tinha falado sobre o enterro, sobre a culpa, sobre o medo de um dia esquecer a voz do meu pai.
Christian sabia.
Abri a boca, mas nenhuma das perguntas encontrou espaço entre os soluços.
— Vou contar tudo — ele disse. — Mas precisamos deixar seu pai falar agora.
O juiz aguardava. O profissional que acompanhava meu pai indicou o lugar onde ele se sentaria, e vi o esforço que fez para recomeçar a caminhada.
Aquilo me fez voltar.
Não porque estivesse calma. Porque ele precisava chegar à cadeira, descansar a perna e respirar sem duas filhas agarradas ao seu corpo.
Christian me conduziu pelo braço. Sentei ao lado de Sky e imediatamente procurei sua mão.
Ela estava gelada.
Minha irmã não parava de chorar. As lágrimas escorriam até o queixo, e ela as enxugava sem perceber que outras já vinham.
— Eu não consegui me despedir — sussurrou.
Apertei seus dedos.
Sky estava no hospital quando o enterramos. Eu fui ao velório. Eu voltei para casa carregando a lembrança que ela não teve a oportunidade de escolher.
Olhei novamente para nosso pai.
Meu estômago se contraiu ao tentar conciliar as duas imagens.
O homem à minha frente ajeitou a muleta ao lado da cadeira. Recebeu um copo de água e precisou das duas mãos para segurá-lo com firmeza.
Eu acompanhei o movimento até ele terminar de beber.
A sala tinha ficado silenciosa de um jeito diferente.
Paulo olhava fixamente para ele. Lacerda se inclinou na direção do advogado e começou a falar, mas foi orientado a aguardar. Gael permanecia com o rosto voltado para nosso pai.
Eu mal conseguia prestar atenção neles.
Depois da identificação e dos esclarecimentos iniciais, o juiz pediu que Otávio explicasse o que aconteceu no incêndio recente e por que sua sobrevivência não foi comunicada antes às filhas.
Meu pai olhou para nós.
A boca dele se moveu antes de a voz sair.
— Eu sobrevivi.
Sky apertou minha mão com força.
— Fui retirado de lá e recebi atendimento — continuou. — Estava muito ferido. Durante um período, não tinha condições de conversar nem de decidir como chegar até minhas filhas.
A voz ainda exigia esforço. Algumas palavras saíam mais devagar, e ele precisava interromper a fala para respirar. Mesmo assim, eu compreendia cada uma.
— Quando consegui entender o que tinha acontecido, soube que acreditavam na minha morte.
Levei a mão livre à boca.
Meu pai baixou os olhos por um instante.
— Eu queria vê-las. Mas já tinham tentado me matar antes. Eu tinha medo de que descobrissem onde estava e tentassem outra vez.
Uma cadeira se moveu do outro lado da sala.

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