A audiência prosseguiu por mais de uma hora.
A juíza fez perguntas adicionais sobre rotina, idade das crianças, formação do vínculo com Givaldo, referências afetivas e contexto de vida dos menores.
Em nenhum momento permitiu que a sala descambasse para um duelo pessoal aberto.
O que, por um lado, ajudava.
Por outro, frustrava.
Porque Ema tinha a sensação constante de que metade do que importava de verdade era simplificado até caber em perguntas manejáveis.
Em determinado momento, a juíza perguntou diretamente:
— As crianças conhecem Givaldo em que papel?
O silêncio caiu por um segundo.
Ema respondeu:
— Como referência paterna cotidiana.
A magistrada assentiu.
O advogado de Alípio tentou intervir:
— Excelência, justamente por isso é importante—
A juíza ergueu a mão e o interrompeu:
— Eu ainda não terminei de ouvir.
Depois voltou-se para Ema:
— Os menores sabem que ele não é o pai biológico?
— Não. Ainda não. — respondeu Ema.
— Por quê?
A pergunta veio limpa, mas pesada.
Ema respirou fundo.
— Porque são crianças muito pequenas. Porque essa informação não pode ser jogada sobre elas como se fosse detalhe administrativo. E porque, antes de qualquer revelação, eu preciso ter segurança de que o contexto em torno disso não será violento, confuso ou destrutivo.
A juíza a observou por alguns segundos antes de anotar novamente.
Mais tarde, quando já caminhavam para o encerramento, a magistrada resumiu em voz clara:
— O quadro que vejo aqui é o de uma paternidade biológica confirmada, mas cercada de lacunas graves, ausência prolongada de exercício concreto, e uma situação atual em que a aproximação precisa ser pensada com extremo cuidado para não transformar crianças em instrumento de reparação emocional dos adultos.
A frase atingiu a sala inteira.
Depois, ela continuou:
— Não vou conceder, neste momento, convivência imediata nem acesso abrupto à rotina dos menores. Também determino, por ora, a preservação da rotina escolar e residencial tal como está, salvo nova decisão.
Ema sentiu o ar voltar aos pulmões.
Ainda não era vitória final.
Longe disso.
Mas era contenção.

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