Naquela noite, depois que as crianças dormiram, Ema recebeu uma ligação de Helena.
A advogada parecia mais cautelosa do que nos dias anteriores.
— A equipe técnica ainda vai produzir relatório, então nada é certo. Mas, pelo que senti do contato mais recente, eles estão caminhando para uma conclusão de preservação da rotina com abertura gradual e muito condicionada para qualquer aproximação futura.
Ema fechou os olhos por um segundo.
Não era ruim.
Mas também não era o “não” absoluto que, no fundo, alguma parte dela ainda desejava.
— “Abertura gradual” ainda significa abertura — murmurou.
— Sim. — respondeu Helena. — E é por isso que precisamos continuar muito consistentes. O nosso objetivo não é parecer inflexível. É parecer — e ser — a parte mais responsável da equação.
A frase ficava sempre voltando:
responsável,
estável,
criteriosa,
protetiva,
não vingativa,
não impulsiva.
Ema já estava cansada de precisar ser tudo isso ao mesmo tempo, o tempo todo.
— E se eu não quiser abertura nenhuma? — perguntou, mais por exaustão do que por estratégia.
Helena demorou um pouco antes de responder.
— Você pode não querer. Isso é humano. Mas, no processo, a pergunta não é “o que você quer” nem “o que ele quer”. A pergunta é “o que o juízo entende como menos danoso para as crianças diante do quadro”.
Ema ficou em silêncio.
Era isso.
Era justamente isso que mais doía.
Não estar decidindo apenas entre vontade e medo, mas entre riscos diferentes.
...
No dia seguinte, Samuel foi ouvido.
Horas depois, mandou apenas uma mensagem para Ema:
“Foi.”
Ela respondeu:
“Obrigada.”
Alguns minutos depois, ele mandou outra:
“Falei tudo. Inclusive o que ninguém gosta de ouvir.”
Ela não perguntou o quê.
No fundo, sabia.
Talvez ele tivesse falado do estado em que ela chegou.
Do medo.
Da fuga.
Do que a casa dos Machado viu de perto quando ninguém mais viu.

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