O ombro de Alípio doeu, mas ele não moveu um músculo, deixando que Ema o mordesse à vontade.
A mão grande pousada em suas costas, pelo contrário, acariciava a espinha dela com uma suavidade de quem embala uma criança.
Para Ema, no instante em que o gosto metálico de sangue invadiu sua boca, foi como se todo o ressentimento reprimido que ela escondia no fundo do coração tivesse sido arrancado à força por Alípio.
Sua atitude era uma prova clara de que ela ainda estava presa aos fios daquele passado.
Ela não devia agir assim. Nos últimos dias, ele a vinha perturbando, mas ela devia ignorá-lo, tratá-lo como se fosse invisível.
No entanto, ela percebia cada vez mais que suas palavras e gestos ainda transbordavam ressentimento.
Ele não merecia aquilo. Desde o momento em que fugira, havia prometido a si mesma deixar tudo para trás. A indiferença era o maior dos desprezos.
Ema soltou a mordida, e seus braços que antes faziam força caíram abruptamente. Agora, ela parecia um boneco sem vida, rigidamente presa nos braços dele.
Percebendo a mudança em Ema, Alípio também foi a soltando devagar.
Ele moveu as mãos para segurá-la pelos ombros, empurrando-a levemente para criar certa distância, e abaixou o olhar para ela.
Os olhos de Ema não tinham brilho, pareciam vazios, fixos num ponto qualquer.
A mandíbula de Alípio contraiu e relaxou algumas vezes, e a força de suas mãos acompanhou o movimento, até que, com uma expressão indecifrável, ele a soltou por completo.
Com a voz rouca e baixa, ele disse:
— O que deixei passar, quero recuperar. O que te devo, quero compensar. O meu objetivo é apenas esse. Já é tarde, descanse bem.
Alípio lançou a ela um último olhar profundo, deu as costas e saiu do escritório, seguindo direto para a entrada da casa.
As duas senhoras já tinham colocado os pequenos para dormir. Quando viram Alípio sair do escritório de Ema, correram para ajudar; uma abaixou-se para pegar os sapatos na sapateira, e a outra se agachou para ajudá-lo a calçar.
— Tenha uma boa noite, senhor.

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