Ema piscou, voltando a si, e depois de um breve momento, perguntou com uma voz distante:
— Anos atrás... por que você deixou Helena ir embora?
Alípio foi pego de surpresa pela pergunta. Ele não sentiu que Ema o estava interrogando, nem imaginava que ela desenterraria o passado daquela forma.
Pelo que ele conhecia dela agora, ela só questionaria as decisões do passado se já estivesse cogitando uma reconciliação.
Mas a atitude atual dela deixava claro que ainda nutria uma forte rejeição por ele. Ou pior, ela sentia tanto desdém que sequer se dava ao trabalho de resistir.
Então... haveria a possibilidade de...?
Alípio ignorou a pergunta dela e rebateu de forma ríspida:
— Foi ela quem foi atrás de você ontem? O que ela te fez?! Para deixar você nesse estado lamentável!
Ema: ...
Como funcionava a cabeça daquele homem? Ela apenas tinha ouvido um boato e queria confirmar com ele, só isso.
Mas Ema mudou a linha de pensamento e, seguindo a lógica dele, respondeu com indiferença:
— E se fosse ela, qual seria o problema? Ela não me tratava exatamente assim no passado?
Enquanto falava, Ema virou levemente o corpo para encará-lo, com um olhar que não expressava raiva, nem calor.
Assim que as palavras pairaram no ar, as veias na testa de Alípio saltaram, e seu olhar, antes perplexo, tornou-se afiado como uma lâmina.
— Se foi ela, pode ter certeza de que os dias de paz dela acabaram.
O tom de Alípio não era exaltado, mas carregava uma frieza sombria que causava arrepios.
Antes que Ema pudesse dizer qualquer coisa, ele se levantou, apoiou as mãos na cama e se inclinou sobre ela, perguntando:
— O que exatamente ela te fez? Durante o dia, como vi que você dormia profundamente, não pedi ao médico para examinar seu estado geral. Você se machucou em mais algum lugar?
Em resumo, Helena havia batido para valer. Para piorar, a vítima não abria mão das queixas, alegando tonturas, náuseas e uma série de sintomas que pareciam irreversíveis, ameaçando colocar Helena atrás das grades.
Fidel precisou implorar por clemência à família da vítima, e só conseguiu um acordo extrajudicial após vender um casarão antigo da família e uma mansão.
Durante o relato, Fidel não mencionou o nome de Alípio em momento algum.
Na hora, Ema achou isso bastante estranho, mas como percebeu que Fidel parecia sequer saber que ela mesma já fora casada com Alípio, a ausência do nome dele deixou de ser uma surpresa.
Isso significava que Helena provavelmente nunca dera os detalhes para a família Ribeiro.
Porém, o motivo pelo qual Helena não recorreu a Alípio em busca de ajuda era um mistério que Ema não conseguia decifrar.
Em seguida, Fidel acrescentou que Helena havia desenvolvido uma forte depressão rapidamente, tanto pelos fracassos amorosos quanto pelo trauma de quase ter ido presa.
Contudo, a revelação mais chocante de Fidel foi que Helena também sofrera um acidente de carro e fora internada, passando dias na UTI. Ela precisou de várias transfusões de sangue para conseguir escapar da morte. Mas a história de Fidel havia parado por aí.

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