Ouvindo que era um assunto de trabalho, Ema adotou um tom profissional:
— Por favor, sente-se, Marcos.
Marcos sentou-se na cadeira à frente dela e explicou:
— Este é o relatório de lucros gerados pelo “Trio Docinho”. Os resultados superaram em muito as expectativas, e a margem de excedente é consideravelmente alta. Quando assinamos o contrato, havia uma cláusula estipulando que qualquer lucro acima das projeções pertenceria ao contratado, mas a forma de pagamento ficaria a critério do contratante. Dê uma olhada.
Ema pegou a pasta e analisou o relatório financeiro minuciosamente. Ela também ficou estarrecida com o volume de lucros. Lendo os papéis entregues por Marcos mais uma vez, deu um sorriso amargo.
Ficava evidente que o verdadeiro propósito de Alípio ao fechar aquele acordo com o “Estúdio Olhar Nobre” era se aproximar dela, usando todo aquele dinheiro como um gesto de agrado.
Já não bastava o fato de que a remuneração pelo contrato era muitas vezes superior à do mercado; agora ele queria repassar a ela todos os rendimentos extras.
Em que lugar do mundo existiria um cliente tão generoso a ponto de tirar dinheiro do próprio bolso para dar ao prestador de serviços?
Ema deslizou a pasta de volta para Marcos e declarou friamente:
— Volte e diga ao seu Sr. Salazar que, embora a cláusula sobre os lucros excedentes conste no contrato e seja totalmente legal, ela não faz o menor sentido do ponto de vista moral. Eu não vou aceitar essa quantia.
A recusa era exatamente o que Alípio previra. Marcos não pôde deixar de admirar a capacidade de antecipação do chefe. Com um sorriso sereno, tirou da maleta uma escritura imobiliária e um molho de chaves, colocando-os sobre a mesa:
— Sra. Pacheco, eu sou apenas o mensageiro, não me coloque em uma situação difícil. Como mencionei, a forma de pagamento é determinada pelo contratante. Como a senhora sabe, o Grupo Salazar tem passado por uma fase turbulenta internamente depois que dois executivos do alto escalão foram parar atrás das grades, o que deixou nossas contas um pouco bagunçadas. No entanto, o grupo tem muitos ativos imobilizados. Aqui estão a escritura e as chaves de uma propriedade no Bosque dos Ipês. Essa será a nossa forma de pagamento. Tudo já foi providenciado; a senhora pode se mudar hoje mesmo, basta levar as malas.
Ema ficou sem palavras.
Hortensia franziu a testa:
— Tá vendo? Isso aconteceu justamente porque você não me deu ouvidos.
Ema sorriu, constrangida:
— Mas... eu segui o seu conselho na inauguração e aceitei os presentes, e não vi resultado nenhum. Aquela mansão no Bosque dos Ipês vale uma verdadeira fortuna, o preço dela equivale ao de um imóvel histórico. Ele está me dando isso de propósito. Se os rendimentos tivessem sido altos a ponto de render um apartamentinho, eu até acreditaria.
Hortensia não se aguentou e soltou um suspiro profundo:
— Ai, Ema... se fosse eu, pegava na mesma hora. Você podia se mudar para lá, contratar algumas babás, e as crianças teriam um espaço enorme para correr e brincar. Pensa em como seria bom! Para que se importar tanto com o resto? Além do mais, ele está em dívida com você. Mesmo que seja um presente disfarçado para te bajular, é só fingir que não percebeu e aceitar. Olha só aqueles documentos, tudo certinho! Eles até criaram uma desculpa perfeita para você receber tudo sem o menor peso na consciência. Você não está sendo obrigada a prometer nada em troca se aceitar.

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