E não dava para culpá-los. Em toda a vida das crianças, aquela era a primeira vez que Ema passava tanto tempo longe delas.
Olhando para a tela, ela as acalmou com a voz mais terna que conseguiu:
— Meus amores, não chorem mais. A mamãe está aqui. Vocês estão me vendo.
Enquanto falava, Ema deu alguns passos para trás, querendo fechar a porta, mas Alípio se esgueirou para dentro do quarto.
Como estava de frente para a câmera, ela não podia demonstrar a raiva que sentia. Só lhe restava concentrar toda a atenção em consolar os filhos.
Enquanto falava com eles, um pensamento lhe ocorreu: e se, quando a chamada terminasse, Alípio se recusasse a sair?
Ema tentou andar de volta para fora do quarto, mas Alípio a puxou pelo braço e também entrou no enquadramento da câmera.
Só então ela se lembrou: não tinha pedido que Givaldo cuidasse das crianças?
Onde ele estava?
No meio da confusão, o rosto de Givaldo apareceu na tela. Ao ver Alípio, a expressão dele mudou para puro espanto. Franziu a testa e perguntou:
— Você seguiu ela?
No entanto, ao perceberem a confusão das crianças diante daquela pergunta, os adultos entraram num acordo silencioso e evitaram tocar no assunto do motivo de Alípio estar nos Estados Unidos.
Depois de conversarem bastante e se certificarem de que as crianças estavam mais calmas, Ema encerrou a chamada. Devolvendo o celular a Alípio, ela disse friamente:
— Eu vou descansar. Por favor, saia.
Alípio assentiu. Então, pegando Ema de surpresa, envolveu a nuca dela com uma das mãos e se inclinou para beijar sua testa. Em seguida, a soltou rapidamente e disse:
— Se sentir medo, me chama. Eu vou estar no quarto ao lado.
Dito isso, saiu do quarto com um sorriso no rosto, enquanto Ema fuzilava suas costas com o olhar, furiosa com a ousadia dele.
O lado positivo era que ele não tinha tentado forçar nada, porque, se resolvesse jogá-la na cama, ela não teria forças para se defender.
Ema hesitou por um instante e respondeu com indiferença:
— Muito bem. Mas você não precisa se dar ao trabalho de fazer nada disso. Eu, assim como você no passado, não ligo para essas coisas.
Dizendo isso, abaixou os olhos e começou a comer, fazendo questão de encontrar defeito em tudo: o pão não estava macio o suficiente, o presunto estava com a textura estranha, o leite estava forte demais e assim por diante.
Alípio provou cada item e achou que estava tudo bom, mas não ousou contestar as críticas de Ema.
Nos dois dias seguintes, a convivência seguiu nesse mesmo ritmo. Depois de visitar os dois bairros restantes, Ema começou a se preparar para voltar; as passagens de retorno já tinham sido compradas antes da viagem.
Ela queria ver se Alípio conseguiria uma vaga de última hora naquele mesmo voo.
Com tudo pronto, os dois saíram. O mesmo motorista do dia da chegada estava esperando por eles. No entanto, ao chegarem, Ema percebeu que aquele não era o aeroporto do voo dela.
Enquanto tentava entender o que estava acontecendo, Alípio pegou a bagagem dela e a conduziu por um corredor restrito.
Só ao atravessar o corredor Ema viu o helicóptero parado diante deles.

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