Mas ele não o fez.
Enquanto Alícia permanecia atônita, o roupão se soltou levemente de suas mãos. Dobrados lá dentro, havia uma toalha limpa e um conjunto de roupas íntimas...
Quando finalmente vestiu o roupão e saiu do banheiro, não havia mais o menor sinal de Kylen.
Ela andou até as janelas francesas enxugando o cabelo com a toalha. Aquele ponto ficava exatamente no centro da casa, de frente para a mesma direção da entrada principal.
De repente, suas mãos pararam. Do lado de fora, espalhava-se um imenso campo de flores. Kylen, ainda totalmente molhado, caminhava com passos decididos pela trilha de pedras no meio do jardim, sem rumo aparente.
Aonde ele poderia estar indo naquelas condições?
Seus passos foram ganhando velocidade, as pernas longas abrindo enormes passadas. Surpreendentemente, ele estava indo direto para a praia.
Kylen sempre fora um homem cujas emoções não transpareciam no rosto. Mas, naquele momento, olhar para as costas dele transmitia uma inexplicável e sufocante inquietação, ele parecia um balão prestes a estourar a qualquer segundo.
Pela outra janela do quarto, a brisa do oceano soprou, jogando os cabelos quase secos de Alícia contra seu rosto. Ela apertou a toalha com força e então viu Kylen chegar à margem e se atirar nas ondas sem pensar duas vezes.
Não se tratava apenas de "não hesitar", mas sim de... puro desespero.
Como se precisasse apagar um incêndio interno, prestes a explodir caso esperasse um segundo a mais.
Alícia desviou o olhar com o coração batendo descompassado e virou-se para procurar o secador de cabelo.
Sem encontrá-lo, acabou voltando para a vidraça, pegou a toalha esquecida no encosto de uma cadeira e continuou a secar os fios.
As ondas varriam a areia compassadamente.
Passou-se um bom tempo. O cabelo dela já estava quase totalmente seco pela brisa quando Kylen finalmente emergiu.
Mergulhado nas águas, talvez incomodado com a sensação da roupa grudando na pele, ele arrancou a camisa em um rasgo violento, atirou os farrapos para longe e enfiou a cabeça novamente nas profundezas.
Como se a espuma salgada tivesse respingado em seu rosto, Alícia virou-se instintivamente. Ela deu uma última olhada para o homem que tornara a desaparecer nas ondas e marchou em direção ao closet para achar algo que pudesse vestir.
Procurou pelo quarto inteiro, mas não encontrou nada com que pudesse amarrá-los. O elástico artesanal, feito do caule de uma flor que Kylen havia usado para prender seu cabelo antes, acabara se perdendo no mar sob a força das ondas.
Ela retornou ao closet e puxou as gavetas da ilha central, dando de cara com dezenas de gravatas muito bem arrumadas. Pegou uma qualquer e prendeu o cabelo num rabo de cavalo frouxo.
Com os fios alinhados, entrou no banheiro, pegou suas roupas úmidas e amassadas, que recendiam à maré, e resolveu jogar todas direto na lixeira.
Ao se virar, algo azul-claro chamou-lhe a atenção. O item repousava meio exposto dentro de uma das gavetas inferiores do balcão da pia.
Ela caminhou até o armário, puxou a gaveta por inteiro e o seu olhar congelou.
Tratava-se de um pacote de absorventes íntimos já aberto, mas que ainda não havia sido totalmente usado.
Aquele era o quarto principal. Mesmo os funcionários que subiam para a faxina não ousariam usar o banheiro do patrão.
Então, a quem pertencia aquele pacote?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Adeus, Meu Ontem!
Não tem mais capítulos???...