O homem que emergia da floresta não era outro senão Nelso Simões.
Assim como Narciso, ele vestia roupas práticas e botas de escalada. Talvez por causa da névoa da mata pairando sobre seu rosto, ele transmitia uma aura fria e distinta da sua postura habitual.
Contudo, a aparição do rapaz não gerou o menor sinal de surpresa em Kylen.
Tanto ele quanto seus homens sabiam muito bem que havia pessoas escondidas na floresta.
E sabiam também que só poderiam pertencer à Família Simões. Apenas com esse apoio Narciso se atreveria a provocá-lo de forma tão descarada.
Apesar disso, ele sabia que, mesmo sem uma emboscada na retaguarda, Narciso teria enxugado as lágrimas de Alícia e segurado a mão dela ali mesmo, bem na sua frente.
A razão era simples: através daquele sorriso entre dentes, ele pôde perceber em Narciso um instinto incontrolável de posse.
O instinto de posse de um homem por uma mulher.
Era algo que ele havia percebido há muito tempo.
Narciso devia dar graças a Deus por Alícia nunca o ter enxergado com interesses românticos.
Naquele instante, o olhar de Kylen não vacilou um único milímetro. Seus olhos profundamente sombrios permaneceram fixos na mão esquerda de Narciso, que segurava firmemente a mão de Alícia.
Seu olhar gélido e cortante fazia qualquer um se sentir como se tivesse espinhos pressionados contra as próprias costas.
— Solta — repreendeu Alícia em voz baixa, erguendo os olhos e fuzilando Narciso com um aviso claro: — Ele vai atirar de verdade.
Ela conhecia a insanidade de Kylen melhor do que ninguém.
Ele não se importava com o lugar nem com o alvo.
Se no passado ele havia sido capaz de atirar nela para proteger Yolanda, é óbvio que atiraria em Narciso sem pestanejar.
— Que atire. Se o preço para te levar embora for perder essa mão, terá valido a pena — respondeu Narciso, impassível, apertando a mão dela ainda mais firme.
Com Kylen, nunca havia segundas chances.
O primeiro tiro servira como aviso. Um segundo tiro, caso fosse apenas mais um aviso, já teria ultrapassado todos os limites de sua paciência.
Ao ver Alícia estender a outra mão para proteger Narciso exatamente no momento do estampido, uma fúria incandescente dominou os olhos de Kylen.
Gotas de sangue carmesim respingavam no chão, escorrendo da mão que segurava a arma.
Os três guarda-costas ao redor dele viram claramente que o segundo disparo havia vindo do outro lado, efetuado por Nelso. Jamais imaginaram que o herdeiro mais velho da Família Simões tivesse uma pontaria tão excepcional.
A bala de Nelso havia acertado em cheio a arma do Diretor Lourenço.
Qualquer pessoa comum sentiria a mão dormente e perderia a sensibilidade devido ao impacto brusco. Mas o Diretor Lourenço jamais deixaria a arma escapar. O choque violento do impacto arrancou a pele do vão entre seu polegar e indicador, deixando a carne em carne viva e coberta de sangue.
Naquele mesmo instante, o Diretor Lourenço levantou a mão, sinalizando para que seus homens recuassem e não atacassem.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Adeus, Meu Ontem!
Não tem mais capítulos???...