A porta do quarto do hospital foi escancarada, e as vozes de Narciso e Enrique ecoaram.
Enrique puxou o ar com força.
A faca de frutas já havia perfurado o peito de Kylen. O sangue encharcava a roupa do hospital, e todo o seu peito estava coberto de vermelho.
Que força Alícia poderia ter? Havia sido Kylen quem segurara a mão dela, forçando-a a esfaqueá-lo.
Ele estava completamente louco!
— Senhorita... — Os passos do Sr. Batista hesitaram, e ele olhou atônito para as duas pessoas na cama.
Até mesmo Hera, que vinha logo atrás, ficou tão chocada com a cena que mal conseguia andar, escondendo-se instintivamente atrás da pessoa que parecia mais confiável ao seu lado.
No entanto, assim que ela se moveu, um vulto passou à sua frente. Vinicius já havia dado um passo à frente com suas pernas longas.
— Espere.
Enrique levantou a voz para impedi-lo.
— Você não vê quem está segurando a faca? Acha que consegue tirá-la dele?
O cenho de Vinicius carregava uma expressão severa. É claro que ele tinha visto que era Kylen quem segurava a faca. Sua primeira reação foi correr para protegê-lo, mas, no instante em que Enrique falou, ele parou.
Enquanto Kylen não soltasse a faca, ninguém conseguiria tirá-la de suas mãos.
Ele havia escapado das garras da morte e, lutando por um último fôlego para chegar até Alícia, já estava no limite de suas forças. Porém, a teimosia implacável que corria em suas veias garantia que ele jamais a soltaria, mesmo que precisasse rasgar a própria carne.
Neste mundo, a única pessoa capaz de salvá-lo era Alícia.
Apenas Narciso permanecia no mesmo lugar, imóvel, observando as duas pessoas na cama com um olhar complexo.
Apesar de tantas pessoas terem invadido o quarto, Kylen as ignorava completamente. Seus olhos não piscavam enquanto encaravam o rosto pálido e rígido de Alícia, e seu aperto na mão dela ficava cada vez mais forte.
Os dedos de Alícia tremiam em espasmos devido à força que ela fazia para se soltar, mas, mesmo assim, Kylen não a largava.
— Você acha que, agindo assim, eu vou...
— Não vai. — Os lábios de Kylen se moveram. À medida que o sangue esvaía, o rosto dele assumia uma palidez assustadora.
— É claro que você não vai me perdoar, e eu nem esperava por isso. Esta facada é apenas para mantê-la aqui. — Um sorriso autodepreciativo surgiu no canto de seus lábios.
Louco, completamente louco!
Enrique sentiu um calafrio na espinha. Uma atitude tão extrema só afastaria Alícia ainda mais.
— Você se enganou. — Sentindo o cheiro de sangue cada vez mais intenso, os olhos avermelhados de Alícia transbordavam de uma frieza implacável. — Mesmo que você se esfaqueie mais algumas vezes, eu não vou ficar.
Com um ruído metálico, a faca escorregou e caiu no chão.
O corpo de Kylen finalmente cedeu. Sua figura alta escorregou para baixo, caindo de joelhos no chão, mas sua mão grande ainda segurava firmemente a mão de Alícia.
Ambas as mãos estavam igualmente frias e rígidas.
E, depois que ele se ajoelhou, Alícia, sentada na cama, pôde ver que todas as costas dele estavam manchadas de sangue. O vermelho assustador se espalhava a partir da mancha mais escura e viscosa no centro de suas costas.
A julgar pelo sangue que já começava a coagular, ele estava sangrando desde o momento em que havia entrado no quarto.
Os dedos dela tremeram levemente, mas logo foram apertados com ainda mais força por Kylen.
— Vinicius, todo o pessoal já está a postos? — Ele ofegou, perguntando sem sequer olhar para trás.
— Todos a postos, aguardando apenas a sua ordem. — Vinicius assentiu.
Ele havia lutado por cada fôlego até o quarto de Alícia, arrastando passos pesados pelo caminho, ofegando a cada movimento, apenas para ver com os próprios olhos que ela estava bem, e para mostrar a ela que ele também estava.
Agir assim agora não era o mesmo que cortar o último fio de vida que o mantinha de pé?!
Faltou pouco para Enrique se ajoelhar diante de Alícia. No entanto, no segundo seguinte, o corpo dela desabou.
— Alícia!
Ágil, Narciso correu para ampará-la. O rosto de Alícia não tinha um pingo de cor, e ela mantinha os olhos fortemente fechados; havia desmaiado.
Com a perda da consciência, a tensão de seu corpo cedeu. Ela soltou os lábios que antes mordia, revelando a carne machucada e ensanguentada.
Chorando, Hera pegou um lenço umedecido e limpou suavemente a boca dela. Seu coração doía tanto que ela nem sabia o que dizer.
Ela sabia há muito tempo o quanto Alícia amava Kylen. Se a facada que ele deu em si mesmo representava dez na escala de dor, para Alícia, o sofrimento chegava a onze.
Quando os profissionais de saúde chegaram ao quarto, Kylen já havia perdido a consciência, mas suas mãos continuavam agarradas a Alícia, exatamente como na madrugada em que fora trazido ao hospital.
Mas a promessa de Vinicius, de que cuidaria de Alícia em seu lugar, não surtiu qualquer efeito desta vez.
Sem outra alternativa, a equipe médica teve que levá-los juntos para a sala de emergência.
Isso nunca havia acontecido antes; hoje, uma exceção foi aberta por causa de Kylen.
Ao entrarem na sala de emergência, a equipe médica conectou rapidamente os monitores cardíacos em ambos.
— Bip... Bip... Bip...
A frequência dos batimentos cardíacos dos dois era, surpreendentemente, idêntica.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Adeus, Meu Ontem!
Não tem mais capítulos???...