O som suave da música preenchia o estúdio, misturando-se ao eco ritmado dos meus passos contra o piso de madeira. Eu me sentia leve, energizada, como há muito tempo não me sentia.
Desde que voltamos de Londres, algo dentro de mim parecia ter despertado. O relacionamento com Nicolas florescia a cada dia, a possibilidade de um teste para uma grande produção da ARAP pulsava na minha mente, e pela primeira vez em anos, eu me permitia sonhar.
Eu tinha enterrado esse sonho quando engravidei pela primeira vez.
Miguel nunca me incentivou a voltar. Dizia que era melhor eu ter algo estável, que balé não me daria segurança, que eu devia pensar no futuro da nossa família. E quando a segunda gravidez veio, seus argumentos se tornaram ordens.
Mas a verdade?
Eu só tinha 23 anos.
Pela segunda vez, sim, mas ainda eram apenas 23 anos.
Eu ainda tinha um futuro pela frente.
Fechei os olhos por um instante, deixando meu corpo seguir a música, entregando-me ao prazer do movimento. Era bom me sentir assim. Livre.
E então, tudo desmoronou.
A porta do estúdio foi aberta com violência, batendo contra a parede com um estrondo que ecoou pelo espaço. Meu corpo congelou no mesmo instante, o coração disparando antes mesmo de meus olhos captarem a figura que invadiu o lugar.
Helena.
Ela estava ali, parada na entrada do estúdio, segurando uma arma.
O sorriso em seu rosto era gélido, cruel.
— Que cena bonita — ela disse, dando um passo à frente. — Uma bailarina reencontrando seu sonho. Mas sabe qual o problema dos sonhos, Ayla? Eles sempre acabam.
Meu peito subia e descia rápido, como se cada respiração fosse uma luta. O que ela estava fazendo? O que ela queria?
— O que você quer, Helena? — minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
Ela inclinou a cabeça, o olhar escuro brilhando com algo perigoso.
— Quero terminar o que começamos.
Um frio percorreu minha espinha.
Ela estava falando do acidente. Do atentado contra a minha vida.
— Você cortou os freios do meu carro.
Eu já sabia disso, é claro. O Fiat Mobi roxo. Mas ainda assim, era difícil admitir em voz alta que a mulher que um dia considerei minha melhor amiga tinha tentado me matar.
— Não fui só eu. — Ela girou a arma entre os dedos, casualmente. — Miguel sempre foi meu cúmplice. Ele queria você morta, Ayla. O seguro de vida seria a única coisa capaz de salvar a empresa dele da falência.
A raiva começou a borbulhar dentro de mim, subindo pelo meu peito como lava incandescente. Na outra realidade, eu vi o pior de Miguel com relação a mim. Isso me fazia não ter a menor dúvida a respeito das palavras de Helena. Mas nossos filhos? Ele teve essa coragem?
— E os meus filhos? — minha voz saiu cortante, cheia de fúria.
Helena revirou os olhos, como se eu estivesse sendo melodramática.
— Miguel não era tão frio. Ele não planejou a morte deles. Ele queria que tivesse acontecido antes da você chegar à escola, que eu tivesse cortado os freios antes.
Não era tão frio? Eu quis rir.
Mas o que ela disse depois fez o mundo ao meu redor estremecer.
— Mas eu, sinceramente? Eu preferi cortar depois. Se aquele acidente tivesse tirado a vida de todos vocês, teria sido um bônus. Não tenho vocação para madrasta de pirralhos.
O chão pareceu sumir debaixo dos meus pés.
O ar ficou pesado.
Minha visão escureceu nas bordas.
— Você é um monstro — minha voz saiu quase num rosnado.
— E você é uma sobrevivente incômoda.
Ela ergueu a arma.
O tempo desacelerou.
Meu coração pulsava alto nos meus ouvidos, cada batida ecoando como um relógio prestes a parar. Minha mente gritava para correr, mas meu corpo estava preso ao chão.
Eu não podia morrer. Não agora. Não depois de tudo.
E então, uma voz grave e firme rompeu o silêncio.
— Largue a arma, Helena.
O alívio e o medo chegaram ao mesmo tempo.
Nicolas.

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