Violet
Abri os olhos, sentindo-os pesados. Rolei na cama em busca de uma posição mais confortável. Mas, é impossível. Sabia que não conseguiria dormir novamente, então me sentei, movendo-me vagarosamente, como se cada músculo protestasse contra a ideia de começar o dia.
Fiquei longos minutos assim, com os pés tocando o chão frio, esperando minha alma acordar e acompanhar meu corpo. Olhei ao redor, o quarto ainda era estranho para mim, mesmo que não tivesse coragem de admitir.
Sabia que só conseguiria funcionar após uma bela xícara de café. Talvez duas.
Obriguei meu corpo a ir até a cozinha, cada piscada parecia tão pesada quanto um saco de batatas. Minha mente ainda estava enevoada pelo cansaço, e meus passos eram quase automáticos, seguindo o caminho pelo apartamento silencioso.
Quando cheguei à cozinha, parei no instante em que vi a mesa já montada. A visão me fez franzir a testa por um momento, tentando processar a cena. Damon estava saindo da cozinha com duas xícaras de café nas mãos, a expressão neutra como de costume, mas havia algo nos movimentos dele que parecia... cuidadoso? Ele colocou uma das xícaras exatamente em frente ao lugar onde eu sempre me sento.
Ele ergueu os olhos para mim, mas não disse nada, apenas indicou a xícara com um gesto de cabeça. Tomei aquilo como um convite silencioso e me sentei, abraçando o café como se minha vida dependesse daquilo. E, de certa forma, dependia mesmo. O calor da bebida entre minhas mãos era reconfortante, quase como se estivesse me conectando de volta ao mundo.
Tomei um gole, deixando o líquido quente deslizar pela minha garganta, enquanto o silêncio entre nós se instalava. Não era desconfortável, mas havia algo ali, uma tensão no ar que eu não sabia como definir. Damon parecia alheio, ou talvez apenas respeitasse meu estado de zumbi matinal. Seja como for, naquele momento, o café era tudo o que importava.
Quando já tinha tomado mais da metade do café, senti a cafeína finalmente começar a surtir efeito. Meus pensamentos estavam menos enevoados, e a sensação de estar desconectada do meu próprio corpo foi, aos poucos, se dissipando. Pisquei algumas vezes, ajustando minha visão, até o mundo ao meu redor entrar em foco.
Foi aí que meu olhar pousou em Damon. Ele estava sentado do outro lado da mesa, com a xícara de café entre os dedos, mas não parecia estar realmente tomando. Seus olhos estavam fixos em algum ponto à frente, e a linha tensa de seus lábios me dizia que algo o incomodava.
Franzi o cenho, observando mais atentamente. Ele parecia... irritado. Não era a expressão fria e controlada que ele costumava carregar, mas algo mais sutil, um desconforto que borbulhava sob a superfície. A ponta de seus dedos batia levemente na borda da xícara, um movimento quase imperceptível, mas que para mim parecia um letreiro piscando: algo está errado.
— Está tudo bem? — perguntei, minha voz ainda um pouco rouca pela manhã.
Damon ergueu os olhos na minha direção, sua expressão neutra retornando quase como uma máscara colocada às pressas.
— Sim, por que não estaria? — ele respondeu, a voz tão controlada quanto o habitual, mas algo no tom me dizia que ele estava mentindo.
Eu me inclinei um pouco para frente, cruzando os braços sobre a mesa enquanto tentava entender o que estava acontecendo.
— Você parece... — hesitei, buscando a palavra certa, enquanto ele mantinha o olhar fixo em mim. — Incomodado com alguma coisa.
Damon desviou o olhar por um instante, como se pesasse a resposta. Depois de um breve silêncio, ele soltou um suspiro curto.
— Longo dia ontem, só isso — disse ele, voltando a segurar a xícara de café.
E como um estalo, uma pontada aguda de dor atravessou meu peito, e a lembrança da noite anterior veio à tona.
O jantar que arrumei com tanto cuidado, tentando encontrar um jeito de apaziguar a tensão que parecia pairar entre nós. A maneira como ajeitei cada detalhe na mesa, esperando que o gesto fosse o suficiente para quebrar a barreira silenciosa que havíamos erguido. E então... o vazio. Damon não apareceu.
Naquele momento, algo dentro de mim se quebrou novamente, uma rachadura antiga reaberta pelo peso do abandono. A insegurança, como um velho conhecido, me puxou de volta ao buraco escuro que Eathan tão cruelmente havia cavado para mim. Eu lembro de ter guardado tudo em silêncio, tentando ignorar a sensação sufocante no peito, e depois me arrastei até a cama.
Lá, sozinha, as lágrimas começaram a cair antes mesmo de eu me deitar. Era como se todo aquele esforço, toda aquela esperança, tivesse sido em vão. Eu chorei até que o cansaço tomasse conta, até que minha mente finalmente me concedesse um alívio temporário no esquecimento do sono.
Agora, sentada na cozinha, com Damon bem na minha frente, a dor daquela lembrança latejava como um lembrete cruel. Eu o observei por cima da xícara de café, o olhar neutro que ele exibia agora parecia tão distante, tão fora de alcance. Será que ele sequer notou? Sequer pensou no que a ausência dele causou?
Eu queria perguntar, queria tirar aquilo do peito, mas as palavras simplesmente não vinham. A mágoa ainda era muito recente, muito crua. Então, permaneci em silêncio, apertando a xícara de café em minhas mãos como se ela fosse o único alicerce entre mim e o abismo.
Dei uma golada no café, deixando o líquido quente deslizar pela garganta, como se ele pudesse lavar o amargo que a lembrança trouxe. O sabor familiar era reconfortante, mas insuficiente para apagar completamente a pontada de mágoa que ainda persistia.
Apesar disso, eu sabia, lá no fundo, que Damon não tinha culpa. Ele não sabia dos meus planos para o jantar. Não fazia ideia do quanto me esforcei ou de como aquilo significava mais para mim do que deveria. Era injusto da minha parte projetar nele o peso das feridas que Eathan deixou.
Respirei fundo, tentando me convencer de que tudo aquilo estava na minha cabeça. Damon não era responsável pelos fantasmas que insistiam em me assombrar. Ele não pediu para ser parte do turbilhão de emoções que eu estava tentando conter desde o dia em que aceitei esse acordo.
Levantei os olhos para ele, que continuava calado, mexendo distraidamente na xícara em suas mãos. Ele parecia tão alheio. E talvez fosse melhor assim. Eu não queria que ele soubesse o quanto aquilo me afetou. Não queria que ele pensasse que estava pisando em ovos ou, pior, que eu esperava algo além do que havíamos combinado.
Mordendo o lábio, decido falar agora o que planejei para ontem.
— Quero que Eathan seja o meu motorista — declarei sem rodeios, mantendo meu olhar fixo em Damon.
Ele enrugou a testa, unindo as sobrancelhas como se tivesse ouvido errado.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor Sob Contrato: O Acordo perfeito