Violet
Mary estava me olhando com o canto dos olhos, e a desconfiança que emanava dela era quase palpável.
Cruzei os braços, tentando parecer ocupada com qualquer coisa que não fosse o fato de que ela claramente queria arrancar algo de mim. Seus olhares furtivos, a maneira como apertava os lábios e mexia no cabelo... Era óbvio que ela sabia que algo estava errado.
Eu suspirei baixinho, desviando o olhar para o chão, como se as tábuas de madeira fossem subitamente a coisa mais interessante do mundo. Não tinha forças para contar sobre o desastre que foi o jantar — ou melhor, o não-jantar. Já bastava ter revivido aquilo inúmeras vezes na minha cabeça, remoendo o vazio na mesa posta e o buraco que ele deixou na minha confiança.
— Você está muito quieta hoje. — A voz dela cortou o silêncio como uma faca, mas havia uma suavidade que me fez erguer os olhos brevemente.
— Só estou cansada. — Minha resposta foi automática, ensaiada. Não que fosse mentira, mas não era toda a verdade.
Mary arqueou uma sobrancelha, claramente não convencida, mas não insistiu. Eu me odiava por isso, por ser tão óbvia. Por mais que quisesse evitar o assunto, parecia que cada movimento meu entregava o que eu estava tentando esconder.
Afastando-me um pouco, tentei encontrar algo para ocupar minhas mãos, uma desculpa para encerrar a conversa antes que ela começasse de verdade. Peguei uma revista da mesa e folheei sem sequer olhar para as páginas.
Ela soltou um suspiro, como se tivesse desistido, e se levantou para sair da sala. Assim que fiquei sozinha, larguei a revista de lado e deixei meu corpo afundar no sofá. A verdade era que contar sobre o jantar só tornaria tudo ainda mais real, mais doloroso.
Eu não estava pronta para isso. Não ainda.
Então me ocupei com algo que realmente valia a pena: a vingança contra Eathan. Não uma vingança amarga, destrutiva, mas algo que o fizesse perceber o que perdeu. Eu queria que ele me visse bem, vivendo uma felicidade que ele nunca foi capaz de me proporcionar.
Queria que ele sentisse, pela primeira vez, o peso de suas escolhas, a dor de perceber que havia jogado fora a oportunidade de ter algo verdadeiro. Algo que, por muito tempo, eu pensei que fosse exclusivo entre nós dois.
Mas como fazer isso? Eathan nunca olhou verdadeiramente para mim. Eu fui mais uma peça conveniente no tabuleiro que ele manipulava. Ele nunca demonstrou ciúmes, nem mesmo quando me via rodeada por outros. O máximo de emoção genuína que já recebi dele foi raiva, como quando fui até sua casa buscar minhas coisas.
Lembro-me daquele dia como se fosse ontem. Ele parecia tão incomodado, mas não pela perda de mim. Estava irritado com a ideia de sua vida sendo remexida, com a inconveniência que eu representava ao querer encerrar de vez a nossa história.
A raiva que senti naquele momento voltou a ferver dentro de mim, e percebi que era isso o que eu queria despertar nele: a mesma raiva, a mesma frustração, mas dessa vez não por algo trivial. Queria que ele se consumisse ao perceber que me subestimou, que me perdeu, e que não tinha mais nenhum controle sobre minha vida.
Com os braços cruzados e os pensamentos fervilhando, imaginei o que poderia fazer para alcançar isso. Talvez meu "casamento" com Damon fosse a resposta. Damon tinha tudo o que Eathan não tinha: charme, poder, confiança. E, principalmente, ele sabia como chamar a atenção de qualquer pessoa, inclusive de alguém como Eathan.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor Sob Contrato: O Acordo perfeito