Início da tarde, na Casa de Amélia
O sol da tarde banhava a casa de Amélia com uma luz dourada e suave, filtrada pelas copas das árvores que dançavam preguiçosamente com o vento. O jardim cheirava a terra molhada e lavanda, e o som da natureza criava uma melodia tão suave quanto um sussurro de verão. O cenário era quase irreal de tão perfeito, sereno, harmonioso, como uma fotografia antiga em tons quentes.
Helen estava ajoelhada à beira do canteiro, as mãos sujas de terra, os cabelos presos em um coque bagunçado que já começava a se desfazer. Usava uma camiseta larga, um short florido e luvas de jardinagem que pareciam grandes demais para seus dedos finos. Estava suada, suja e mais bonita do que jamais saberia.
Amélia, com uma cesta de ervas nos braços, se aproximava por trás com um olhar terno, carregado de uma ternura que só as mães, e as mulheres muito observadoras, sabem cultivar.
— Essas lavandas vão ficar lindas aqui no canto — disse Helen, sorrindo com os joelhos afundados na grama fofa.
— Vão, sim. E combinam com você. — respondeu Amélia, com os olhos fixos na jovem como quem já enxergava um futuro.
Helen ergueu os olhos, franzindo a testa.
— Comigo?
— Sim. Delicadas, firmes… e com aquele perfume que fica mesmo depois que o tempo passa.
Helen corou e sorriu, meio sem graça.
— Você tá poética hoje.
— Eu sempre fico poética quando pressinto que meu filho vai fazer besteira… ou finalmente tomar coragem pra fazer algo importante.
Antes que Helen pudesse reagir, o som do portão de ferro se abriu. Os passos dele vieram lentos, mas firmes, como sempre. A respiração de Helen prendeu-se na garganta. Os olhos correram até Amélia que, com um sorrisinho cúmplice, passou a mão nas costas da filha do coração.
— Acho que vou preparar um suco. E vou demorar. — disse, piscando e se afastando com sua cesta como quem abandonava o campo de batalha.
Helen não se moveu.
Ficou ali, de joelhos no jardim, com a luva cheia de terra na mão… e o coração batendo forte dentro do peito.
Ethan.
Ele parou ao lado dela. Ficou em silêncio por um momento longo demais. Mas sua presença era inconfundível. Quente. Pesada. Irresistível.
— Oi. — disse ela, finalmente, sem olhar.
— Oi. — respondeu ele, num tom baixo, quase íntimo.
Ela virou-se devagar, ainda ajoelhada, e encontrou os olhos dele. Eles se encararam por segundos longos, carregados de histórias mal resolvidas, de saudade disfarçada, de palavras que queriam sair mas não sabiam como.
— Está tudo bem? — ela perguntou, a voz embargada.
Ethan assentiu, mas era claro que havia muito mais sob aquela resposta.
— Agora está. — ele completou.
O silêncio seguinte quase fez as folhas das árvores pararem. Helen respirou fundo. Precisava quebrar aquilo de algum jeito.
— O que você está fazendo aqui, Carter?
— O que está fazendo aí, chatinha?
— Plantando ora, não está vendo?
— Se concentrando tanto por quê? Está tentando ensinar as plantas a sobreviverem ao seu jeito desastrado?
Helen nem se virou.
— Você fala como se fosse botânico agora.
— Não sou, mas tenho olhos. Esse aí já morreu três vezes só desde que você começou — apontou para uma lavanda meio caída.
— É o sol! — respondeu, irritada, ainda sem olhá-lo. — E talvez a pressão de ser cuidada por alguém que vive sendo sabotada.
— Sabotada? Pelas plantas?
Ela soltou um suspiro exagerado, se virou e o encarou com as mãos nos quadris.
— Não. Por um certo homem que passa os dias zombando do meu talento de jardineira.
— Chamaria isso de “talento”? Isso aí tá parecendo cemitério de planta, Helen.
— Ethan Carter…
— Sim?
— Você tem sorte de eu estar com as mãos sujas, senão—
— Senão?
— Senão jogava um punhado de terra na sua cara.
Ele deu um passo adiante.
— Se tiver coragem, j**a.
Ela hesitou. Ele desafiava com os olhos. Ela pegou um punhado.
— Helen…
— Ethan…
— Nem pense—

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