Capítulo 203
Ezequiel Costa Júnior
Khalid armou pra mim. Sabia que eu iria atrás dele, deixou a localização pra isso, mas foda-se. Eu sabia muito bem onde estava pisando e ninguém ameaçava minha família.
Esperei até ter certeza de quem estava ao meu lado de verdade. Se havia peixe podre no meio. Eu já tinha a estratégia perfeita, organizada entre eu e Mauro caso tivesse um problema aqui dentro. Havia um gás, e máscaras num compartimento fácil de pegar. Poucas. Faria eles dormirem e depois poderíamos decidir o que fazer.
Paredes de concreto polido, janelas cobertas, uma longa mesa de reuniões cercada pelos rostos mais antigos — e perigosos — da Zion.
E todos estavam ali… por minha causa.
Sentado na ponta da mesa, mantinha o queixo erguido e os ombros relaxados, como se aquilo fosse apenas mais um encontro comum. Mas dentro de mim, tudo pulsava. Raiva, desconfiança… e aquela calma calculada que antecede o disparo.
Ninguém ousava se aproximar. Nem mesmo os seguranças escalados pelo Conselho. Tenho o respeito do cargo que tenho.
Mas ele falava.
O bastardo.
Khalid se levantou com teatralidade, empunhando a velha carta de Yulssef como se fosse um testamento sagrado.
— Acredito que a maioria aqui conhece este documento — disse ele, a voz carregada de falsa autoridade. — Uma carta escrita pelo próprio Yulssef, Consigliere da Zion, do Don original, antes de desaparecer.
Ele girava pelos membros da mesa, pousando o olhar em cada um deles. Tentando angariar apoio.
— Nesta carta, ele deixa claro que o herdeiro deveria ser sangue direto. Filho legítimo ou reconhecido. — Ele ergueu a folha. — E segundo as evidências, isso não inclui Ezequiel Costa Júnior. Porque não é filho de sangue.
Houve um burburinho baixo. Ele se aproveitou.
— Um exame de DNA foi feito. Usaram sangue meu que sou legítimo, diferente do que comentam. Foi coletado recentemente quando Ezequiel perdeu a memória, porque até ele desconfiou que não era filho de Ezequiel Costa. Disseram que não foi entregue o resultado a mim por ordens do Don. Mas me digam... por que esconderiam isso se fosse positivo? Ezequiel já teria usado hoje mesmo como trunfo, não é?
Ele sorriu, vitorioso, como se já tivesse vencido.
— A verdade é que Ezequiel não tem o direito de comandar a Zion. E por isso, proponho uma votação imediata para retirá-lo da liderança antes que ele destrua tudo o que construíram.
A maioria se remexeu, desconfortável. Alguns evitaram meu olhar. Outros apenas observaram, neutros. Mas ainda ninguém ousava me desafiar diretamente.
Eu me mantive em silêncio. Frio.
Mohammed, sentado ao meu lado, inclinou-se levemente e sussurrou:
— Eu disse que sua esposa estava vindo. Olha as imagens ali nas câmeras ao lado.
Eu não reagi de imediato. Apenas me recostei na cadeira.
Foi então que o som de passos apressados ecoou no corredor. E, simultaneamente, as telas do sistema de segurança começaram a acender.
Câmeras externas.
No estacionamento, dezenas de carros chegavam. Escuros, rápidos. E liderando todos eles, um veículo preto com vidros espelhados. A Limusine que eu conhecia muito bem.
Meu sorriso veio devagar.
— Ela veio.
Só que lembrei que ela estava arriscando. E com ela aqui eu não arriscaria soltar o gás.
As portas se abriram com estardalhaço, e delas desceram figuras decididas. A maioria… mulheres. Armadas até os dentes, metralhadoras pendendo dos ombros, botas pesadas pisando firme no asfalto. Um pequeno exército, posicionado com precisão. Os homens vieram atrás, silenciosos, formando a retaguarda.

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