Capítulo 204
Ezequiel Costa Júnior
Tudo ao meu redor parecia acontecer em câmera lenta.
O barulho das cadeiras sendo arrastadas, o som das armas sendo engatilhadas, a respiração densa de cada membro naquela sala...
Mas dentro de mim, o mundo desabava em silêncio.
O papel ainda estava na minha mão. Pesado. Mais pesado que qualquer pistola que já segurei. Dizia que aquele asqueroso era meu pai.
O sangue deixou meu rosto. Eu matei aquele desgraçado.
Matei com ódio. Com prazer. Matei como se ele fosse só mais um monstro a ser eliminado.
E agora... isso?
Mohammed percebeu meu silêncio. Me estudava com aquele olhar agudo, impassível, como se já soubesse o que estava passando dentro da minha cabeça.
Foi Mauro quem assumiu o comando da sala.
Ele deu um passo à frente ao lado de Mariana, e a autoridade com que falou fez todos silenciarem como um exército obediente.
— Eu exijo, diante do Conselho da Zion, a execução imediata de Khalid por traição, difamação e tentativa de golpe. Ele conspirou contra o Don, contra a estrutura da família e, principalmente, contra a honra da esposa dele, Senhora Bazzi. E isso, como todos sabemos... é sentença de morte.
Mariana cruzou os braços, o rosto impassível.
As palavras dela ecoaram afiadas como lâminas, mas eu mal ouvia. A imagem de Ezequiel Costa sangrando no meu chão, me olhando com aquele sorrisinho desgraçado enquanto morria…
"Você vai ser igual a mim, moleque..."
Levantei o olhar, buscando Mohammed.
— Como faremos isso?
Ele se aproximou lentamente, sem pressa.
— Eu te avisei que sua senhora estava vindo, Don. E também avisei a ela o que Khalid tinha feito e que você estava aqui. Ela só fez o que uma rainha deve fazer quando tentam tomar o trono à força. Mas espero piedade agora. Não me entenda como um traidor. Eu jogo pelo justo.
— E o exame? Você... sabia?
— Eu sabia que existia porque Khalid disse. Não sabia o conteúdo. — Ele hesitou um segundo, depois completou. — Mas sempre desconfiei que fosse mentira. Por isso nunca joguei contra você. Pra mim e os membros do conselho é um excelente Don.
Respirei fundo. Meus dedos cerraram o papel com tanta força que amassou.
— Entendo. Você será poupado, Mohammed, como também os membros do conselho. Sempre cumpriu seu papel. Porém quero Khalid morto.
Ele apenas assentiu com a cabeça, sério.
Mas então... Khalid explodiu.
— NÃO! — berrou, batendo no tampo da mesa. — ESSA PORCARIA É FALSA! É FORJADA! VOCÊS TODOS ESTÃO SENDO MANIPULADOS POR ESSA PUTA COM UMA BARRIGA INFLADA E UM MONTE DE ARMAS!
Puxei a arma e atirei no pé de Khalid.
— Mais uma palavra dela e vai engolir a bala manualmente.
— AHHHH! MEU PÉ! MEU PÉ!
— Cuidado com a boca, Khalid. — Mariana disse geladamente, sem levantar a voz. — Eu também posso arrancá-la fora.
Ele riu. Um riso seco, nervoso, apavorado, misturado ao pânico, desespero.
— Esse exame não prova nada! Vocês sabem como é fácil falsificar isso hoje em dia! Por que não estão investigando? Por que estão só acreditando? Porque estão com medo?!
Se virou pra mim, olhos arregalados, cuspindo veneno:
— Aposto que você matou o próprio pai! O seu pai de sangue! Você se acha digno de comandar alguma coisa agora? Você é um maldito parricida! Um demônio pior que ele! E daí que é filho! Deve ter matado o verdadeiro Don.
Eu levantei e a sala gelou. Mauro interferiu:
— Realmente. Você poderia ter se beneficiado se o resultado fosse o contrário. Porque quem pediu e fez esse exame, foi Yulssef. Só que aquele rato de esgoto, antes de sumir, ser apagado, não viu. Não teve tempo, não soube o resultado. Fui eu quem entregou ao Don.
Todos os olhares voltaram pra mim.
Minha respiração era lenta, pesada, como se estivesse segurando algo dentro do peito prestes a explodir.
— É isso que te resta, Khalid? Tentar me fazer duvidar de mim mesmo?
Dei um passo à frente.
— Você tentou matar minha mulher. Meu filho. — Dei outro passo. — E por isso… você não terá perdão.
— Você é igual a ele! — Khalid gritou. — Você só quer poder, morte, controle! Você é o próximo tirano! Vai acabar com tudo que seu pai construiu!
Cheguei até ele.
— Talvez eu seja mesmo como ele. Sou o filho, não é?
Encostei o rosto no dele, olhos nos olhos.
— Mas a diferença é que comigo… ninguém levanta pra trair duas vezes.
Dei um passo pra trás e apontei pro Conselho.
— A sentença está dada. Khalid não é mais parte da Zion. — olhei pra Mariana. — Senhora Bazzi. O privilégio é seu.
Ela sorriu de leve, tirando a arma da cintura.
— Com prazer.
O silêncio que pairou após Mariana erguer a arma foi mais ensurdecedor do que qualquer disparo.
Khalid, ajoelhado, segurava o pé ensanguentado, o rosto contorcido de dor e medo. Mas eu conhecia bem aquele olhar…
Ele ainda acreditava que tinha alguma chance. Que alguém ali, em algum momento, se levantaria por ele.
Mas ninguém o faria.

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