O som do interfone ecoou no pequeno espaço da portaria. Eduardo ajeitou o quepe antes de apertar o botão e responder:
— Pois não?
Do outro lado da câmera, Natan encarava o portão como se pudesse atravessá-lo apenas com a força do olhar. A respiração dele era pesada, a postura inquieta.
— Preciso falar com a Francine. Agora. Diga que é Natan. — Sua voz soou carregada de impaciência.
Eduardo, impassível, caminhou até o portão. Sem abrir, retirou um envelope do balcão e estendeu pela pequena fresta.
— A senhorita Francine não está. Mas deixou isto para o senhor.
Natan arrancou o envelope da mão do porteiro, já antecipando o conteúdo. Rompeu o papel com brutalidade e puxou a carta.
Bastou uma olhada para que seu rosto se contraísse num misto de incredulidade e fúria.
Em letras garrafais, a única mensagem:
“Vá para o inferno, Natan!”
As mãos dele tremeram. O papel foi amassado e jogado ao chão, enquanto um rugido escapava de sua garganta.
— Onde ela está?! — bradou, socando o portão. — Você, traga a Francine imediatamente aqui, ou eu coloco essa mansão abaixo! FRANCINE!!!
A voz ecoou pelo jardim, mas Eduardo não se abalou.
— Senhor, isso será impossível. Ela saiu cedo e não informou para onde ia.
Natan bufava, transtornado, os olhos varrendo cada janela como se esperasse vê-la surgir.
Foi então que uma sombra surgiu ao lado do portão. Otávio caminhava firme, mão apoiada sobre o coldre, olhar frio como aço.
— Algum problema, Eduardo?
— Esse senhor insiste em chamar por Francine, mas já expliquei que ela não está mais aqui.
Otávio se posicionou diante de Natan, erguendo o queixo em desafio.
— Você ouviu. Francine não está. Vai sair por bem... ou eu mesmo vou ter que tirar você daqui?
O silêncio pesou. Natan percebeu que não tinha chance.
Passou a mão nos cabelos, nervoso, a respiração descompassada. Antes de virar as costas, lançou uma praga ao vento:
— Desgraçada... Quando eu te achar, Francine, eu acabo com você.
E saiu cambaleando em fúria, deixando para trás apenas a ameaça suspensa no ar.
Enquanto isso, a quilômetros dali Dorian não estava muito diferente.
O clima no escritório estava carregado desde o instante em que Dorian atravessou a recepção.
Não cumprimentou ninguém, sequer ergueu os olhos.
À secretária, lançou apenas uma ordem seca:
Dorian massageou as têmporas com força, a respiração pesada.
— Minha cabeça tá doendo demais pra isso... e eu não sei se é de ressaca... ou de chifre.
Cássio não resistiu: soltou uma gargalhada alta, arrancando de Dorian um olhar fulminante.
— Ah, agora sim! Dor de cotovelo, né? — disse, ainda rindo. — Calma aí, eu tenho uma pilha de relatórios que vai ser melhor que analgésico. Você vai se enterrar nisso e esquecer até o próprio nome.
E Dorian fez exatamente o que ele dissera: afundou-se em planilhas, relatórios e reuniões, como se pudesse enterrar a própria mente sob toneladas de trabalho.
Nada parecia suficiente para silenciar a fúria e o aperto no peito, mas ao menos o mantinha ocupado.
Quando a noite caiu, voltou para casa exausto, ainda com o coração acelerado pelo medo de, ao chegar à mansão, se deparar outra vez com a cena que mais odiava imaginar.
Entrou sem demora, evitando encarar os cantos que lhe traziam lembranças, e foi direto para o banho.
Queria apagar o dia, apagar a sensação, apagar tudo.
Mas, ao sair do banheiro, a toalha ainda em torno da cintura, parou.
Sobre o travesseiro repousava um envelope.
Seus olhos estreitaram.
— Mais um bilhete, Francine?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Beijada pelo Chefe no Baile de Máscaras