Os dias seguintes se tornaram uma rotina quase sagrada.
Ela acordava junto com o sol, descia para o café da manhã, corria para a cafeteria, cumprimentava todos os colegas e clientes, e rapidamente seu francês melhorava.
Agora não precisava mais depender do inglês para confirmar pedidos.
A simpatia e dedicação de Francine fidelizavam cada vez mais clientes, e seu patrão começou a confiar nela para lidar com os horários mais movimentados.
Em um dos raros momentos de pausa no trabalho, seu chefe puxou assunto:
— Você veio do Brasil, não é? — perguntou ele, curioso.
— Sim, e lá fui acostumada a servir com educação. Mas a simpatia é de berço, sabe? — respondeu Francine, sorrindo.
Ele riu e balançou a cabeça:
— Pois está funcionando. Os clientes adoram você.
Os dois ficaram em silencio por um instante. Logo, ele continuou a conversa.
— Onde está morando?
— Só num quarto de hotel, mas preciso achar algo mais barato, porque tá difícil manter.
O patrão pensou por alguns segundos e disse:
— Tenho um quarto livre na minha casa, da minha filha que se mudou há um tempinho. Posso te ceder, e descontamos do seu salário. Mais seguro para mim, e você economiza.
— Nossa, isso seria maravilhoso! — Francine respondeu, aliviada. — Achei que ia acabar dormindo na rua qualquer dia desses. — brincou.
Uma semana depois, Francine se despediu do hotel com o coração apertado.
Conversou com os funcionários de quem havia se tornado amiga, deixando-lhes lembranças e pequenos agradecimentos.
— Vou sentir saudades, de verdade. — disse, abraçando uma das recepcionistas.
— Mas você vai arrasar, Francine. Paris é sua casa agora! — respondeu a recepcionista, sorrindo.
Ao chegar na nova casa, foi recebida pela esposa do patrão, uma mulher elegante e magérrima, que a cumprimentou com um sorriso acolhedor.
— Você deve ser a Francine, não é? — disse a mulher com um sorriso elegante. — Prazer, eu sou Adele. Seja muito bem-vinda!
Malu tentou falar sobre Dorian, mas Francine cortou rápido:
— Não quero saber, Malu. Deixei meu passado aí no Brasil, e espero que ele continue aí.
— Tá, tá… mas cuidado, hein! — Malu respondeu, resignada.
As duas conversaram mais um pouco, rindo de pequenos detalhes e compartilhando saudades, antes de se despedirem com olhos marejados, cada uma sentindo a falta da outra, mas sabendo que essa distância também era necessária.
Enquanto organizava os últimos pertences no novo quarto, Francine sentiu algo deslizar de entre as roupas e papéis.
Curiosa, pegou o objeto e percebeu que era o convite para o baile da Montblanc. Seus olhos brilharam instantaneamente.
Ela sorriu, sentindo uma mistura de ansiedade e determinação. Cada esforço, cada dificuldade enfrentada até ali parecia ter ganhado um propósito.
O sonho que parecia distante agora estava ao alcance, e Francine sabia que não iria desperdiçar nem um segundo.
Com o convite em mãos, ela se acomodou na cama, imaginando o cenário do grande salão, as luzes refletindo em vestidos elegantes, o burburinho das pessoas importantes, e o momento em que todos perceberiam a transformação que ela havia conquistado por mérito próprio.
— É… falta menos de dois meses — murmurou, segurando o convite com firmeza. — Vocês que me aguardem, porque quando eu entrar nesse salão vocês vão precisar de óculos escuros, de tanto que eu vou brilhar!

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