Natan Ferraz mal podia acreditar no que estava prestes a fazer.
Sentado diante da imprensa, com os olhos estreitos e o queixo erguido, ele respirou fundo antes de iniciar sua declaração pública.
Por fora, mantinha a postura firme de um empresário respeitado; por dentro, cada músculo do corpo implorava para explodir.
O jornalista mais próximo ajeitou o microfone em frente a ele.
O flash das câmeras estourava sem parar, cada clique soando como uma martelada em sua cabeça.
— Boa tarde a todos — começou Natan, a voz grave, controlada. — Em respeito às vítimas de violência, achei importante trazer à tona uma situação que, embora registrada em circunstâncias privadas, serve de alerta para todos.
Uma pausa calculada. Ele engoliu seco.
— Quero deixar claro que repudiamos qualquer ação de violência. A empresa que represento se solidariza com a causa e estamos cooperando com as autoridades competentes.
O burburinho cresceu entre os jornalistas. Um deles arriscou uma pergunta:
— Sr. Ferraz, o vídeo mostra nitidamente o senhor em uma situação de agressão. O senhor nega que se trata de você?
O maxilar dele se contraiu. O sangue latejou nas têmporas.
Ele sabia que não podia negar, as imagens eram nítidas demais.
Então respirou fundo, travando cada palavra para não transparecer a raiva:
— Não se trata de justificar nada. Trata-se de reconhecer a importância de debatermos o assunto. Violência contra a mulher é inaceitável em qualquer contexto.
Por dentro, queria quebrar o gravador na mesa. Por fora, manteve o tom educado.
Do outro lado da cidade, Dorian Villeneuve assistia à transmissão em seu escritório, a expressão fechada, quase impassível.
Os braços cruzados, o olhar frio e calculista, cada palavra de Natan era absorvida como combustível para seu plano maior.
Quando a transmissão terminou, ele fechou o laptop devagar, como se tudo estivesse caminhando exatamente como ele queria.
— Isso, Natan… isso é só o começo — murmurou, em voz baixa, quase como um juramento.
Ele pegou a caneta e abriu o caderno de couro que mantinha sempre à mão. Anotou algumas palavras: exposição, imagem, queda.
O prazer que sentia não era apenas pela humilhação de Natan diante das câmeras; era pela sensação de que a balança começava a pesar a seu favor.
Levantou-se, foi até a janela do escritório e olhou para a avenida movimentada. O reflexo no vidro devolveu-lhe o olhar duro.
— Você me tirou Francine…. Eu não vou parar até tirar tudo de você.
Um sorriso frio, quase imperceptível, curvou seus lábios.
Enquanto isso, na mansão, Malu assistia à mesma transmissão, sentada na cozinha com um café na mão.
— Eu… eu não acredito — murmurou, levando a mão à boca.
Voltou o vídeo, assistiu de novo, agora prestando atenção às reações dos jornalistas, aos murmúrios de fundo.
Um riso curto, incrédulo, escapou de seus lábios.
— É… justiça. De um jeito meio estranho, mas justiça.
As mãos tremiam, mas havia um alívio dentro dela que há muito não sentia.
Uma mensagem de Malu chegou logo depois:
“Você tá vendo isso?”
Francine digitou devagar, ainda processando:
“Tô. E ainda não sei nem o que pensar.”
Mas no fundo, sabia sim. Aquilo era o começo de algo maior.
Ela fechou os olhos e, por alguns segundos, imaginou Dorian.
Será que ele também estava assistindo? Será que ele entendia o quanto isso significava pra ela?

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