Francine estava sentada à mesa da cozinha, mexendo distraidamente a colher dentro da xícara de café.
O vapor subia, formando espirais que se dissipavam no ar, mas ela quase não percebia.
Havia dormido pouco, com o coração acelerado desde a noite anterior, mas curiosamente sentia-se mais leve.
Um peso antigo parecia ter sido arrancado de seus ombros.
Adele entrou no cômodo com os cabelos já devidamente alinhados, uma verdadeira lady, segurando um pão recém-saído da torradeira.
Ao ver a Francine ali, com um sorriso contido nos lábios, franziu a testa.
— Bon jour… — murmurou, mordendo o pão. — Você está com uma cara diferente hoje. Mais… sei lá, alegre. O que aconteceu?
Francine ergueu os olhos, hesitou por um instante e depois puxou o celular do bolso do robe.
— Você não vai acreditar — disse, deslizando a tela e colocando o aparelho sobre a mesa. — Olha isso.
Adele se inclinou curiosa. O vídeo começou a rodar em silêncio: um homem de terno caro agarrando uma mulher contra a vontade dela, tentando beijá-la à força.
Adele não precisou de muito para reconhecer a moça sendo puxada: os cabelos escuros, os olhos assustados… era Francine.
Adele levou a mão à boca, chocada.
— Mon Dieu! — exclamou. — Esse homem… quem é ele?
Francine suspirou, apoiando o cotovelo na mesa.
— O nome dele é Natan Ferraz. Meu ex-namorado. — O tom da palavra “ex” carregava uma mistura de nojo e rancor. — Ele foi o motivo de eu ter ido embora do Brasil.
— Ex-namorado? — Adele ergueu as sobrancelhas, incrédula. — Você namorava esse… monstro?
— Na época eu não via quem ele realmente era — admitiu Francine, mexendo a colher no café. — Eu trabalhava como modelo, fazia alguns desfiles, campanhas pequenas… foi nesse meio que o conheci. Ele tinha charme, dinheiro, influência. Eu era muito nova, e me deixei levar.
Adele piscou algumas vezes, como se precisasse assimilar a informação.
— Espere aí… modelo? Você nunca me contou isso!
Francine deu um meio sorriso sem graça.
— Pois é. Quando vim para a França, foi em busca de oportunidades como modelo. Mas como não apareceu nada de imediato, acabei arrumando o emprego no café para me sustentar.
Adele apoiou o queixo na mão, ainda surpresa.
— Eu sei preparar refeições saudáveis, equilibradas. Sei montar cardápios que emagrecem sem te deixar fraca. Se é isso que as agências exigem, nós vamos dar um jeito. Você não vai enfrentar isso sozinha.
Por um instante, Francine sentiu o coração se apertar.
A generosidade de Adele era como um bálsamo, mas ao mesmo tempo a ideia de moldar-se até o limite para caber em um padrão injusto a deixava angustiada.
Ainda assim, não teve forças para recusar. Apenas assentiu com um sorriso leve.
— Obrigada, Adele. Eu… eu não sei o que faria sem você.
Adele sorriu de volta e apertou a mão dela sobre a mesa.
— Você não vai mais carregar nada sozinha, d’accord? Nem passado, nem ex-namorado, nem dieta maluca de agência.
Francine ergueu a xícara de café como se fosse um brinde.
— As francesas que me aguardem, porque eu vou chegar lá botando todas no chinelo! A França ainda vai aprender a valorizar um corpo brasileiro de verdade.
Adele caiu na gargalhada e ergueu a própria xícara.
— Voilà! Essa é a energia que eu estava esperando!

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Beijada pelo Chefe no Baile de Máscaras