O telefone de Natan não parava de tocar desde as primeiras horas da manhã.
Primeiro foi o jurídico, depois o setor de obras, em seguida o assessor de imprensa.
Ele atendia uma ligação e já havia outras três esperando. A cada notícia, o sangue subia-lhe ao rosto.
— Como assim a obra no centro foi embargada? — rugiu no viva-voz, caminhando de um lado para o outro no escritório. — Eu quero que resolvam isso imediatamente!
A voz do engenheiro-chefe soou trêmula do outro lado da linha:
— Senhor, a fiscalização apareceu com uma lista detalhada de irregularidades. É como se… como se soubessem exatamente onde procurar.
Natan parou no meio da sala, o coração acelerado. Não era coincidência. Alguém estava guiando cada passo contra ele.
Antes que pudesse responder, outra chamada entrou. Ele atendeu com um estalo de impaciência:
— Fala!
Era o assessor de imprensa, quase sem fôlego.
— Senhor, saiu matéria de capa no Jornal do Comércio. Acusam a Ferraz & Soares de descumprir normas ambientais. Tem fotos, depoimentos… está se espalhando como fogo.
— Maldição! — Natan arremessou a caneta contra a parede, a ponta de metal ricocheteando e caindo no chão.
Enquanto isso, André entrou no escritório sem bater. O olhar dele era duro, quase gélido.
— Então é isso? — disse, cruzando os braços. — Um dia após eu te alertar, estamos no olho de outro furacão?
Natan tentou conter o nervosismo, forçando uma postura de liderança.
— Estamos lidando com ataques coordenados, André. Isso é obra de inimigos que querem nos derrubar.
André não piscou.
— Ou talvez seja apenas incompetência sua.
As palavras perfuraram como lâminas. Natan sentiu a garganta secar.
Ele queria gritar, queria culpar o mundo, mas sabia que estava perdendo o controle, e André percebia cada rachadura.
Lá fora, nas ruas, manchetes eram estampadas nas bancas, rádios comentavam, jornalistas ligavam sem parar.
O nome da Ferraz & Soares, até ontem sinônimo de prestígio, agora era associado a fraude, descuido e corrupção.
Natan se apoiava na mesa de vidro, os nós dos dedos esbranquiçados de tanta força.
O telefone não parava de tocar, e cada ligação era mais um golpe no ego já abalado.
— Senhores, vamos manter a calma! — dizia ele a um grupo de diretores reunidos às pressas por vídeo chamada. — Eu tenho a situação sob controle.
A imagem de André surgiu no canto da tela, expressão séria, voz carregada de ironia:
— Controle? Isso aqui está mais para incêndio sem brigadista, Natan. Você está apenas reagindo, sem estratégia nenhuma.
Natan bateu a mão na mesa.
— Eu disse que é sabotagem! Esses fiscais estão recebendo informações privilegiadas, ninguém chega com esse nível de detalhe do nada!
O ar em sua expressão era de incredulidade misturada com fascínio.
— Você viu isso? — perguntou, quase sem fôlego, jogando os papéis sobre a mesa. — Estão detonando a Ferraz & Soares em todos os jornais. Escândalos de contratos irregulares, denúncias ambientais, clientes rescindindo… Parece que o castelo de cartas do Natan está finalmente caindo.
Dorian apoiou o queixo na mão, os olhos fixos nos gráficos vermelhos que ainda despencavam na tela.
Não demonstrava surpresa, apenas a calma certeira de quem já previa cada movimento.
Cássio deu um riso nervoso.
— É surreal. Eu jurava que esse cara era intocável.
Foi então que Dorian se virou lentamente, encarando-o com aquele olhar cortante que não precisava de palavras para impor silêncio.
Depois, num tom baixo, quase debochado, soltou:
— E quem você acha que está fazendo isso?
Cássio arregalou os olhos, como se só então a ficha caísse.
Dorian inclinou-se na cadeira, um sorriso frio curvando os lábios.
— Eu te disse, Cássio. Esse idiota vai pagar caro por ter encostado na Francine.
Ergueu o copo de whisky, brindando ao vazio, enquanto as telas continuavam a piscar em vermelho.
Para ele, aquilo não era crise. Era espetáculo.

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