O desfile não parava.
Assim que saíram da passarela, as modelos eram puxadas de volta ao turbilhão do backstage: trocas rápidas de roupas, maquiadores retocando sombras e batons em segundos, costureiras correndo para ajustar um zíper que insistia em emperrar.
Francine, ainda sem acreditar que estava ali, foi guiada por Juliette para a arara seguinte.
— Você vai vestir este agora — disse a estudante, firme, sem espaço para hesitação.
Em poucos minutos, Francine já estava pronta para a segunda entrada.
O frio na barriga ainda latejava, mas o corpo parecia ter recuperado uma memória esquecida.
Cada salto dado na passarela fazia seu andar ganhar mais naturalidade, como se não tivesse passado um só dia longe daquele mundo.
A terceira entrada trouxe algo novo: um vestido ousado, cheio de recortes assimétricos que exigia não apenas postura, mas presença.
Ao atravessar a passarela, os holofotes destacavam cada curva do tecido sobre o corpo dela, e mais uma vez os olhares da plateia convergiram para aquela figura desconhecida que parecia dominar o ambiente.
Na quarta e última entrada, Francine já não era a mesma mulher que tinha sido empurrada às pressas para substituir uma modelo ausente.
Agora, era como se a passarela lhe pertencesse.
A segurança que transmitia não tinha nada de ensaiado; era orgânica, natural, quase instintiva.
O público a acompanhava em silêncio, como se tivesse medo de perder qualquer detalhe.
Quando todas as modelos retornaram juntas para a volta final, a diferença entre ela e as demais ficou ainda mais nítida.
Não era apenas a beleza, era a forma como caminhava, a maneira como parecia respirar o desfile.
Enquanto algumas meninas ainda olhavam discretamente para os avaliadores em busca de aprovação, Francine encarava o horizonte com altivez, como se soubesse que já havia conquistado todos que precisavam vê-la.
Nos bastidores, Juliette observava com um misto de alívio e surpresa.
O desfile seguia impecável, mas uma certeza se firmava em sua mente: aquela mulher não estava destinada ao anonimato.
Quando o desfile terminou, as palmas ecoavam no salão, mas para Francine o som parecia distante, abafado, como se ela estivesse mergulhada debaixo d’água.
O coração ainda batia acelerado, e o corpo vibrava com a adrenalina que não queria se dissipar.
Encostou-se por um instante em uma das paredes do backstage, respirando fundo.
Um turbilhão de pensamentos veio de repente, como se aquele instante de glória tivesse puxado de dentro dela todas as perguntas que vinha evitando.
— Francine, você foi incrível! — disse uma delas, ainda com os fones do comunicador pendurados no pescoço. — Não só na passarela… lá atrás, você salvou a gente.
— Sério, se não fosse você, o backstage teria virado um pandemônio — acrescentou outra, rindo nervosa. — A gente vai comentar isso no relatório, pode ter certeza.
Francine sorriu, sem saber exatamente como reagir àquela enxurrada de agradecimentos.
No fundo, ainda sentia a estranheza de estar ali, era como se o palco tivesse reacendido uma parte dela que permanecia adormecida, mas também como se tudo tivesse acontecido rápido demais.
Uma das estudantes, a mais falante, inclinou a cabeça de lado e cruzou os braços, avaliando Francine de cima a baixo com ar divertido.
— Você sabe, né? Não dá mais pra se esconder. O mundo vai querer saber quem é você.
Francine riu sem jeito, prestes a responder, quando outra das meninas puxou seu braço com entusiasmo.
— Ah, vem cá! Tem alguém que você precisa conhecer.
Ela a conduziu pelo corredor estreito até onde um homem discreto, com câmera pendurada no pescoço e olhar atento, revisava algumas fotos na tela.
Tinha uma presença calma, mas ao mesmo tempo intensa, como quem via mais do que as lentes conseguiam capturar.
— Lohan — chamou a estudante, com um sorriso conspiratório. — Essa é a Francine.

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