O celular vibrou sobre a mesa de mogno, interrompendo o silêncio disciplinado do escritório. Dorian ergueu os olhos do relatório que lia, já com a sensação de que sabia do que se tratava.
A tela confirmava: era uma nova mensagem dos advogados.
"Compra da parte de André concluída. Estamos apenas aguardando a assinatura final de Natan para oficializar a transferência."
Um músculo discreto se contraiu no maxilar dele. Mais uma peça do tabuleiro no lugar.
Guardou o aparelho no bolso do paletó, levantou-se e ajeitou a gravata com o gesto automático de quem não admitia brechas.
O dia havia sido longo, mas não improdutivo.
Enquanto seguia em direção ao elevador privativo, ainda no corredor Cássio o alcançou com a mesma energia inquieta de sempre, o sorriso fácil contrastando com a sobriedade de Dorian.
— Fugindo mais cedo hoje? — provocou o amigo, acompanhando seu passo firme até o elevador.
— Encerrando no horário. — Dorian respondeu sem humor, apertando o botão.
— Ah, então sobra tempo pra comentar o jogo da semana. Os Centuriões vão dar uma coça nos Náuticos, tô te falando. Eu falei que ia apostar neles, mas você... — Cássio deu um assovio curto. — O que te faz pensar que os Náuticos vão levar essa?
Dorian arqueou uma sobrancelha, como se aquilo fosse óbvio demais para merecer entusiasmo.
— Estatística. Quando se olha para os números, não existe sorte. — A porta do elevador se abriu, revelando o estacionamento no subsolo.
— Tá dizendo que eu devia ter apostado tudo? — Cássio riu.
— Estou dizendo que você não sabe analisar probabilidades. — retrucou sorrindo, já caminhando em direção ao carro.
A risada de Cássio ecoou atrás dele, mas Dorian não voltou o rosto. Já estava mentalmente distante, calculando próximos movimentos que ninguém, além dele, precisava conhecer.
Os dias para ele se arrastavam como uma maratona em câmera lenta.
Dorian saía cedo, mergulhava em reuniões intermináveis e retornava tarde, com o peso do silêncio acompanhando cada passo.
O expediente concluído não trazia alívio, apenas a repetição de uma rotina que parecia ensaiada à exaustão.
Chegava em casa e deixava o paletó cuidadosamente pendurado no cabide, como se o gesto fosse suficiente para se livrar da rigidez que o acompanhava desde a manhã.
Mas não era.
Nem a arquitetura impecável de sua mansão, nem o silêncio controlado dos ambientes, nada conseguia abafar a presença incômoda que insistia em se infiltrar nos pensamentos.
Francine.
Era irritante admitir que a saudade dela persistia, ora como uma fagulha inconveniente, ora como um espectro silencioso.
Ele tentava afastá-la com relatórios, cálculos, contratos. Nada funcionava.
Sempre havia um detalhe, um gesto, um perfume, uma memória súbita, que atravessava suas defesas como se não existissem.
Naquele dia, decidiu testar outro método.
Mandou preparar o deck da piscina e, sob o céu avermelhado do fim de tarde, começou a treinar.
Flexões, abdominais, séries de movimentos de calistenia executados com precisão quase militar.
Cada repetição era uma tentativa de esmagar aquela lembrança insistente.
O suor descia pela têmpora, o coração acelerava, mas ainda assim, ela estava ali, na sombra de cada respiração.
Foi quando o celular vibrou, repousando sobre a cadeira de descanso.
Ofegante, Dorian esticou o braço e o pegou, esperando uma notificação de trabalho.
Mas era o banco.

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