Adele e Pierre estavam fascinados com a tela, admirando a energia da torcida, o barulho, os bandeirões coloridos, os gritos de emoção.
Para eles, tudo aquilo parecia um espetáculo vibrante e organizado.
— Uau, olha como eles comemoram! — exclamou Pierre, batendo palmas junto com a transmissão.
— Que incrível, tão empolgados! — concordou Adele, sorrindo.
Francine, por sua vez, estava completamente imóvel, os olhos brilhando de surpresa. Um sorriso involuntário se formou em seus lábios.
Ela não conseguia parar de observar: como o destino podia ser tão irônico?
— Francine? — Adele chamou, percebendo o sorriso curioso. — Está tudo bem?
Ela riu baixinho, ainda hipnotizada pela tela:
— Eu… eu nunca esperaria ver algo assim. É tão irônico!
— Ué, mas não é assim que todas as torcidas no Brasil comemoram? — perguntou Adele, curiosa.
— Não, é exatamente assim! — respondeu Francine, ainda com os olhos grudados na tela. — A ironia está no fato de eu abrir justamente o vídeo em que aparece meu antigo patrão na torcida!
Adele arqueou as sobrancelhas:
— Quem é?
Francine voltou o vídeo, pausando no exato momento em que a câmera mostrava Dorian abraçado com Cassio, comemorando em meio à torcida.
— Ele — apontou, com um leve sorriso — Dorian Villeneuve.
Adele se inclinou, impressionada:
— Nossa, bem jovem… E que bonito! — deu um leve empurrãozinho em Francine com o ombro.
Francine deu um sorriso contido, mas logo desapareceu:
— Sim… maravilhoso… — disse, a voz carregando uma ponta de ironia. — Pena que é um idiota.
Adele notou o tom de desabafo e inclinou-se para frente, preocupada:
— Quer conversar sobre isso?
Pierre, ainda grudado na tela da TV, suspirou:
— Se vão ficar batendo papo, vão pra cozinha, eu quero assistir o jogo.
Adele virou-se com um sorriso maroto:
— Ah, é? Pois tomara que seu time perca…
E, sem esperar pela reação dele, saiu em direção à cozinha, puxando Francine junto.
As duas riram enquanto caminhavam, deixando Pierre sozinho no sofá, reclamando baixinho sobre a inveja que ela tinha do time dele.
Assim que chegaram na cozinha, Adele colocou a chaleira no fogo enquanto Francine abriu o armário e foi separando geleias e torradas para montar um café digno de uma confissão.
A mesa foi se enchendo de cores e cheiros, como se aquilo desse coragem para as palavras que estavam prestes a vir.
Adele foi a primeira a puxar o assunto:
— E então? O que foi que o bonitão fez pra você guardar esse rancor todo dele?
Adele assentiu, franzindo o cenho.
— Pois é… Ele entrou na garagem exatamente no momento em que aquele idiota me beijou à força. E acreditou, de verdade, que eu estava traindo ele. Me chamou de mentirosa e tudo. Nem sequer me deu o benefício da dúvida. — Francine baixou os olhos para a xícara de chá, como se ainda doesse repetir. — Foi por isso que, no dia seguinte, arrumei minhas malas e vim pra Paris.
Adele ficou em silêncio por alguns instantes, absorvendo cada palavra da amiga.
Mexia devagar o chá na xícara, como se o barulho da colher fosse a única forma de organizar os próprios pensamentos.
Por fim, ergueu os olhos para Francine:
— Olha, eu vou ser sincera com você… Ele errou. Muito. Não confiar em você naquele momento foi imperdoável.
Francine assentiu, quase aliviada, mas Adele levantou a mão para continuar:
— Só que você também não fez diferente, viu? Jogou a verdade na cara dele, não deu espaço pra explicações e fugiu. Um relacionamento sólido não nasce assim, de impulso. — Ela suspirou, apoiando o cotovelo na mesa. — Eu e Pierre já tivemos nossas brigas feias, daquelas de um achar que não tem volta. Mas no fim, se existe amor, a gente para, respira e tenta. A gente escuta.
Francine franziu os lábios, pensativa.
— Eu… eu só tive medo.
— Medo todo mundo tem — Adele disse com firmeza, mas sem perder a doçura. — Mas é no medo que a gente decide se vai enfrentar ou abandonar. Você fugiu, Fran. Talvez ele merecesse ouvir de você, com calma, a sua versão. Talvez até merecesse a chance de pedir desculpas.
Francine ficou em silêncio, com o chá esfriando nas mãos.
As palavras de Adele batiam fundo, porque soavam como uma verdade que ela não queria admitir.
Adele tocou de leve a mão dela, quebrando o peso da confissão:
— Não tô dizendo que você tem que voltar correndo pros braços dele. Só tô dizendo que, se algum dia vocês se encontrarem de novo… não fuja. Escute.

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