Francine abriu a porta de casa com um suspiro longo, ainda ajeitando os fios recém-cortados com a ponta dos dedos.
Mal teve tempo de pousar a bolsa sobre a poltrona quando Adele, que estava acomodada no sofá com uma revista no colo, ergueu os olhos e deixou escapar um grito dramático:
– Mon Dieu! Quem é você? O que fizeram com a minha Francine?
Francine riu sem graça, fechando a porta atrás de si.
– Calma, Adele… sou eu. Só precisei dar um jeitinho no cabelo.
Adele largou a revista de lado e foi até ela, andando em círculos como se examinasse uma obra de arte.
– Um jeitinho? Isso aqui é uma revolução, minha filha! Conta logo o que aconteceu.
Francine suspirou, meio sem saber se ria ou se chorava.
– Foi um acidente no desfile. Acabei com chiclete grudado no cabelo e não tinha como salvar. Tive que correr para o salão… e o resultado foi esse.
Adele arqueou as sobrancelhas, fingindo indignação.
– Chiclete? Mas que mundo é esse em que colam chiclete no cabelo de uma modelo? Essas francesas andam malucas… – fez uma pausa dramática e depois completou com um sorriso cúmplice. – Mas, sinceramente? Eu devia mandar flores para essa pessoa misteriosa. Porque o resultado…
Ela ergueu as mãos como quem revela um truque de mágica.
– … está simplesmente deslumbrante! Você não parece a mesma mulher que entrou aqui na semana passada. Está radiante, mais forte. Exuberante!
Francine, corando, desviou o olhar para o chão.
– Você acha mesmo? Eu fiquei com medo de parecer… sei lá, radical demais.
Adele segurou o rosto dela com delicadeza e obrigou-a a encarar o espelho do hall.
– Olhe bem, ma chérie. Essa não é uma mudança, é um renascimento. Agora me diga: quem é o mago das tesouras que fez isso? Porque eu preciso conhecê-lo imediatamente!
Francine riu, finalmente relaxando.
– Adrien. O nome dele é Adrien. Acho que você gostaria dele.
Adele juntou as mãos como se tivesse acabado de receber uma revelação.
– Adrien… maravilhoso! Já vou guardar esse nome. Se ele conseguiu transformar um desastre em triunfo, imagine o que não faria por mim.
As duas caíram na gargalhada, o peso do dia finalmente se dissipando.
Francine ajeitou-se no sofá, ainda brincando com a ponta do novo corte.
— A propósito, Adele, já que estamos falando de indicação… você tem alguma loja de vestido de festa para me indicar?
Adele, que estava recolhendo umas revistas da mesinha, ergueu o olhar desconfiado.
Francine gargalhou sozinha. Aquela reação só reforçava a sensação de que um ciclo havia se fechado.
Ela deixou o celular de lado e seguiu para o banho.
A água quente escorrendo pelos ombros trouxe um alívio para os pés doloridos e para o corpo exausto do desfile.
Mas ao mesmo tempo, parecia lavar mais do que o suor e a tensão; era como se cada gota levasse embora resquícios da Francine insegura que ainda se agarrava ao passado.
Depois do banho, já deitada, deixou o silêncio tomar conta do quarto.
Olhou para o teto e suspirou fundo.
Pensou no Brasil, nas ruas que conhecia de cor, no sotaque familiar, nos cheiros que carregavam lembranças.
Parte dela sentia falta dessa simplicidade, da vida que tinha deixado para trás.
Mas outra parte… outra parte se perguntava sobre Dorian.
Faltavam apenas alguns dias para o baile, e a dúvida martelava: se ele estivesse lá, como seria o reencontro? Será que a olharia da mesma forma? Será que perceberia a mudança nela?
Francine fechou os olhos, tentando afastar as perguntas.
O sono veio devagar, embalado pela certeza de que ela não era mais a mesma mulher que havia deixado o Brasil para trás.

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