O sol mal havia despontado no horizonte quando Dorian já estava de pé.
O hábito disciplinado o fazia despertar sempre com a primeira luz do dia, como se o próprio corpo tivesse sido treinado para nunca desperdiçar tempo.
No terraço, o ar fresco da manhã tocava sua pele enquanto ele executava os movimentos precisos da calistenia.
Cada flexão, cada prancha, cada salto era controlado, medido, não apenas um exercício físico, mas também um ritual de domínio sobre si mesmo.
Depois de meia hora de treino intenso, desceu para um banho rápido e gelado, deixando a água correr pelos ombros largos, reacendendo a energia que o aguardava para a semana decisiva.
Quando atravessou a porta da cozinha, Malu já estava lá, como sempre, organizando a mesa do café.
Mas foi ela quem primeiro percebeu: havia algo diferente no semblante de Dorian naquela manhã.
O olhar menos carregado, os ombros menos tensos, até a postura parecia mais leve.
— Que alegria é essa logo cedo? — ela provocou, arqueando as sobrancelhas enquanto se apoiava no balcão.
Dorian sentou-se à mesa e ajeitou os punhos da camisa, um sorriso quase imperceptível escapando pelos lábios.
— Estou indo pra França essa semana — respondeu, com a voz grave, mas suavizada pelo tom de expectativa. — Finalmente chegou a hora de reencontrar Francine.
Malu não conseguiu disfarçar o riso cúmplice.
Empurrou uma xícara fumegante na direção dele e, em seguida, pousou sobre a mesa um pote de cookies recém-saídos do forno.
— Não tem lugar na sua mala pra uma amiga cheia de saudades não? — disse, em tom de brincadeira, embora os olhos deixassem transparecer um verdadeiro carinho.
Dorian pegou a xícara de café e a girou entre os dedos antes de levar aos lábios.
O vapor quente subiu, encobrindo por um instante o olhar firme que ele fixava na própria xícara, como se pesasse as palavras antes de deixá-las escapar.
— Se tudo der certo — disse por fim, num tom calmo, quase blasé — eu trago ela de volta comigo.
Malu piscou duas vezes, surpresa.
— Trago de volta? Você fala como se fosse sequestrar a coitada.
Ele inclinou-se na cadeira, o mesmo sorriso contido que usava em reuniões quando já sabia que estava vencendo.
— Não é sequestro, Malu. É destino.
Ela bufou, descrente, mordendo um cookie para disfarçar o riso.
No escritório, algumas horas depois, Dorian mergulhava em relatórios e contratos quando a secretária interrompeu o fluxo com um aviso: havia uma ligação urgente de Eduardo Rangel.
Ele atendeu sem pressa, mas a voz do “sócio” do outro lado carregava uma energia diferente.
— Dorian — a voz do homem soou firme do outro lado da linha —, é hoje. O primeiro conselho pós-cisão foi marcado para esta tarde. Você vem comigo?
Dorian recostou-se na cadeira de couro, os olhos semicerrados como quem saboreia uma vitória que vinha sendo planejada há muito tempo.
— É claro. — A resposta veio carregada de satisfação contida. — Finalmente chegou a hora de arrancar esse imbecil do trono que ele acha que é dele.
Desligou o telefone e ficou alguns instantes em silêncio, os dedos tamborilando sobre a mesa.
Por meses, havia arquitetado cada passo para esse momento.
Comprara ações quando o mercado despencara, manipulou as circunstâncias, manteve o silêncio até ter todas as peças no tabuleiro.
Agora, o jogo estava ganho.
E até o fim daquele dia, o trono de Natan não passaria de uma lembrança.

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