O burburinho tomou conta do salão assim que o leilão foi encerrado.
Convidados cochichavam entre si, alguns impressionados com a ousadia de Dorian, outros calculando mentalmente quanto tempo levariam para juntar uma quantia sequer próxima da que ele havia acabado de oferecer.
O nome Villeneuve circulava em sussurros, acompanhado de olhares curiosos e até um ou outro gesto de respeito disfarçado.
Dorian, indiferente à comoção que causara, levou a taça de espumante aos lábios, tomou um último gole lento e repousou o cristal vazio sobre a bandeja de um garçom que passava.
Em seguida, ergueu-se com a mesma tranquilidade de quem havia dado apenas um lance modesto.
Malu, ainda com o coração disparado, levantou quase no mesmo instante, como se o instinto dissesse que seu lugar era seguir os passos dele.
Cássio, claro, não perderia a oportunidade de se manter próximo. Ergueu-se também, ajeitando o paletó com ares de deboche.
Os três seguiram juntos rumo à equipe de organização para acertar os pagamentos.
O som de saltos e sapatos elegantes no mármore ecoava sob o burburinho, até que Cássio quebrou o silêncio:
— Quatro milhões? — arqueou a sobrancelha, inclinando-se levemente na direção de Dorian. — Exibido.
Dorian sequer vacilou na passada, respondendo com a naturalidade fria que lhe era característica:
— Era um evento beneficente. O dinheiro vai financiar projetos importantes. Além disso, não queria esperar o leilão inteiro. Amanhã viajo para a França, e precisava encerrar logo. — Sua voz era firme, sem arrogância, como quem enunciava um fato inquestionável.
Cássio, porém, não deixou passar:
— Aham... e meu nome é vovó Mafalda. — disse com sarcasmo, abrindo um sorriso enviesado.
Malu, que vinha caminhando em silêncio, não resistiu.
Uma gargalhada cristalina escapou antes que ela pudesse conter, atraindo alguns olhares curiosos ao redor.
— Drama de rico. Adoro. — completou, ainda rindo, tentando recuperar o fôlego.
Dessa vez, foi Cássio quem parou abruptamente, franzindo a testa e encarando Malu como se tivesse ouvido algo inconcebível:
— E você não é rica? — a pergunta veio carregada de genuína surpresa. — Achei que modelos estavam acostumadas a esses ambientes.
Malu hesitou por um segundo, mas antes que respondesse, olhou de soslaio para Dorian, e os dois explodiram em risadas cúmplices, continuando o passo firme até a área reservada do evento.
O som dos risos ecoou leve, contrastando com a rigidez luxuosa do ambiente.
Cássio ficou alguns passos atrás, parado, acompanhando-os com uma mistura de perplexidade e irritação.
A equipe de organização os recebeu com a formalidade típica de quem já estava acostumado a lidar com cifras milionárias.
Ainda assim, era impossível disfarçar o entusiasmo nos olhos da responsável ao entregar a pasta de documentos e guiar Dorian até a mesa de pagamentos.
Malu observava de perto, tentando absorver cada detalhe como se estivesse em um filme: as canetas douradas, os formulários impecavelmente dispostos, o discreto aperto de mão confirmando a transação.
Dorian assinou com tranquilidade, sem pressa, enquanto a funcionária anotava os detalhes da compra.
Quando finalmente lhe entregaram a caixa aveludada que guardava a tiara, ele a recebeu com cuidado, como se já fosse uma joia de família.
A confissão, vinda de alguém tão acostumado ao controle, fez Malu erguer as sobrancelhas.
Ela se virou, estudando o semblante dele, que não tinha ironia, nem cálculo. Apenas uma verdade crua.
— Medo? — ela repetiu, quase em dúvida.
— Sim. — ele continuou, a voz mais baixa. — Medo de que ela não queira me ouvir, como eu fiz com ela. De que tudo que eu faça não seja suficiente.
Malu suspirou, apoiando as mãos sobre a caixa como se quisesse transferir força para ele.
— Então vou te dizer o que eu acho. — falou firme, como quem dava uma bênção. — Eu acho que daqui a alguns dias vou atender uma ligação da Francine, com ela toda esbaforida, falando que vocês se encontraram e que foi maravilhoso. Vou ficar esperando por isso. Porque, sinceramente, é exatamente o que acho que vai acontecer.
Dorian virou-se para ela, e por um segundo pareceu prestes a retrucar, a vestir novamente a máscara de cinismo habitual.
Mas o olhar determinado de Malu o deteve.
No fundo, aquela confiança despreocupada era o que ele precisava ouvir.
Ele respirou fundo e recostou-se no banco, deixando que a tensão escapasse de seus ombros.
— Então espero que esteja certa. — murmurou.
Malu, rindo baixinho, ajeitou a caixa da tiara no colo e completou:
— Pode confiar em mim. Afinal, eu nunca erro palpites de amor.

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