Pascal sentou no sofá e inclinou-se para trás, avaliando Francine com uma expressão que misturava curiosidade e cálculo.
Então, num gesto quase imperceptível, fez sinal para que as pessoas que ainda circulavam pelo lounge se retirassem.
A movimentação cessou em segundos, e logo só restavam ali os três: Pascal, Dorian e Francine, cercados por um silêncio que parecia carregar mais peso do que a conversa em si.
Ele então quebrou a quietude com a voz grave:
— Me diga, foi a sua agência que sugeriu que você cortasse o cabelo e perdesse peso? — seus olhos se estreitaram, como quem já sabia a resposta. — Porque está muito mais bonita agora do que no vídeo do desfile que Dorian me enviou.
Francine piscou algumas vezes, desconfortável com a observação tão direta.
— Foi mais ou menos isso… — respondeu, mordendo o lábio, sem saber se deveria se sentir elogiada ou invadida. Uma pausa se instalou, e a curiosidade lhe escapou antes que pudesse segurar. — Espera, que desfile?
Pascal ergueu uma sobrancelha e virou-se para Dorian com uma risada seca.
— Ela não sabe?
Dorian desviou o olhar por um segundo, um raro traço de constrangimento estampado em seu rosto sempre tão controlado.
— Era pra ser surpresa — murmurou, ajeitando o punho da camisa como se isso pudesse disfarçar o desconforto. — Mas as coisas demoraram mais do que eu planejava.
Pascal soltou uma gargalhada rouca, sacudindo a cabeça.
— Desde criança te ensinando sobre negócios e você ainda perde o timing, Dorian Villeneuve?
Francine olhou de um para o outro, atônita, a sensação de que estava perdida em um diálogo em outro idioma.
— Do que vocês estão falando? — perguntou, a voz carregada de impaciência.
Dorian respirou fundo, então se inclinou levemente para a frente, como se tentasse reduzir a distância emocional que sempre impunha.
— Lembra daquele dia do desfile no shopping? — começou, os olhos presos nos dela. — Você realmente deveria ter passado naquela seleção. Mas eu pedi que retirassem o seu nome.
Francine arregalou os olhos, a fagulha de raiva surgindo de imediato.
— Eu sabia! — exclamou, a incredulidade ecoando em sua voz. — Você… você me sabotou!
— Não foi sabotagem — Dorian corrigiu, a voz firme, mas carregada de um subtexto que só ela conseguiria perceber. — Naquele dia eu estava no desfile como olheiro. Observei cada detalhe, cada rosto. E então recomendei seu perfil diretamente para a Montblanc. Só que… eu precisava te manter por perto. Se você fosse selecionada, seria enviada para São Paulo, e eu não poderia te acompanhar. Então sim, pedi que retirassem o seu nome. Mas apenas para abrir um caminho maior.
As palavras dele pareceram desacelerar o tempo.
Francine sentiu o coração disparar, os pensamentos embaralhados.
Agora tudo começava a se encaixar.
O interesse súbito de Dorian, as perguntas insistentes sobre sua carreira, a forma como ele tinha olhado para ela desde o início.
Não era controle cego, não era capricho. Era plano. Um plano pensado desde o começo para colocá-la em evidência, só que pelas mãos dele.
— Podemos começar?
Dorian sustentou o olhar dele por um instante, a mandíbula firme, e respondeu no mesmo gesto contido, sem som algum:
— Chegou a hora.
O peso daquela confirmação pairou no ar, como se o destino de Francine estivesse selado em um pacto invisível.
Pascal então se inclinou levemente para frente, interrompendo o abraço com uma voz que soou tanto cordial quanto definitiva:
— Bom, Francine, será muito bem-vinda caso queira se juntar ao casting da Montblanc.
As palavras bateram fundo nela, despertando uma emoção intensa.
Os olhos brilharam como se finalmente pudesse acreditar que aquele momento era real.
— Seria a realização de um sonho — disse, quase sem fôlego, a voz carregada de incredulidade e gratidão.
Pascal sorriu com a satisfação calculada de quem sabia exatamente o que estava fazendo.
Seu olhar alternou entre ela e Dorian, como se fosse o maestro regendo a abertura de uma sinfonia que só eles conheciam.
— Então aproveitem a festa. O espetáculo vai começar.

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