Dorian saiu do escritório com o maxilar rígido, ainda sentindo o peso das últimas palavras do pai.
O som da porta se fechando atrás dele ecoou como um lembrete de que nada havia terminado, apenas mudado de tom.
Ao atravessar o corredor, ouviu vozes vindas da sala de visitas.
Eleonor e Francine estavam sentadas uma de frente para a outra, envoltas num diálogo que parecia educado demais para ser confortável.
O pai, Oscar, já observava de pé, com as mãos nos bolsos e a expressão neutra de quem acompanhava tudo em silêncio calculado.
Assim que Dorian entrou, o olhar de Francine o encontrou e bastou um segundo para ele entender.
O sorriso contido, os ombros tensos, o olhar ligeiramente cansado.
Ela tinha resistido.
Eleonor, por outro lado, levantou-se com a graça ensaiada de quem sabe dominar qualquer ambiente.
— Denise já providenciou um quarto para nós — anunciou ela, como se nada tivesse acontecido. — Vamos nos acomodar e descemos assim que o jantar estiver pronto.
Oscar apenas acenou, e seguiu atrás da esposa.
Dorian os observou se afastarem até sumirem no corredor, deixando o ar mais leve e, ao mesmo tempo, carregado de tudo o que não fora dito.
Francine soltou um suspiro profundo e se jogou no sofá, as mãos caindo sobre o colo.
— Que bom que você tem uma casa grande — murmurou ela. — Assim a gente pode se perder nela até segunda ordem.
Dorian se permitiu um meio sorriso e se aproximou.
Sentou-se ao lado dela e, sem dizer nada, a puxou para um abraço silencioso.
Por alguns segundos, o tempo pareceu suspenso, dois sobreviventes de batalhas diferentes, mas igualmente exaustos.
— Tá tudo bem? — ele perguntou por fim, a voz mais baixa do que o habitual.
— Sobrevivi — respondeu, com um meio sorriso cansado. — E você?
— Também. — Ele encostou a cabeça no encosto do sofá, fechando os olhos por um instante. — Acho que é o máximo que dá pra esperar num encontro com os Villeneuve.
O silêncio que se seguiu foi confortável, denso, quase íntimo.
Francine observou o perfil dele por um momento antes de perguntar:
— Como foi lá dentro? — a voz dela veio calma, mas curiosa.
Dorian abriu os olhos, sem olhar diretamente pra ela.
Deu um leve sorriso, sem humor.
— O de sempre. — Pausou. — Negócios, controle, ameaças disfarçadas de conselhos paternos.
Francine arqueou uma sobrancelha, apoiando o queixo na mão.
— Então quer dizer que vocês tiveram uma conversa normal de família.
Dorian soltou uma risada breve, sincera pela primeira vez desde que chegara.
Ela o encarou, meio divertida, meio séria.
— Então quer dizer que é perda de tempo tentar causar boa impressão?
— Com eles, sempre foi. — Ele apoiou os cotovelos nos joelhos, massageando a nuca. — Ninguém nunca conseguiu agradar meus pais... nem eu.
Francine se aproximou novamente, deitando a cabeça no ombro dele.
— Eu não tô tentando agradar ninguém, Dorian. Só quero que você não enfrente isso sozinho.
Os olhos dele suavizaram por um instante, e ele tocou de leve o rosto dela, num gesto contido, mas carregado de gratidão.
— Cuidado com o que deseja — murmurou ele. — Quando se trata da minha família, até estar ao meu lado pode ser perigoso.
Ela sorriu, sem se abalar.
— Já estive em lugares piores.
A resposta dela o pegou desprevenido, arrancando um riso baixo e breve.
Francine respirou fundo, endireitou os ombros e olhou em direção ao corredor.
— De toda forma acho que é melhor eu subir e me trocar. Não quero piorar a impressão usando seu moletom.
Dorian assentiu, mas ficou olhando enquanto ela se afastava.
Havia algo em Francine, talvez aquela mistura improvável de coragem e sensibilidade, que o fazia querer protegê-la e, ao mesmo tempo, se apoiar nela.

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