O clima à mesa estava mais espesso que o ar quente que vinha da cozinha.
O perfume caro de Eleonor misturava-se ao cheiro de comida, e Francine sentia cada garfada presa na garganta.
Eleonor, com seu sorriso impecável e voz doce demais, conduzia o almoço como quem rege uma orquestra, e cada palavra dela era uma nota de provocação.
— Espero que estejam gostando do almoço — disse, inclinando-se com elegância. — Fiz questão de pedir algo simples… imaginei que talvez pudessem estranhar algo mais refinado.
O pai de Francine pigarreou antes de responder, forçando um tom de falsa cortesia.
— Não precisava se preocupar. Seria ótimo nos acostumarmos com esse tipo de refeição, afinal, se Francine e Dorian se casarem, isso se tornará recorrente.
Eleonor quase deixou escapar uma risada, mas conteve-se com um gole de vinho.
O olhar que trocou com Oscar dizia tudo: era o tipo de comentário que eles esperavam ouvir.
— E vocês moram em qual região mesmo? — perguntou Oscar, com a voz grave e educadamente inquisidora.
A mãe de Francine se adiantou, empolgada em parecer sofisticada.
— Um bairro muito agradável, Santa Luzia, sabe? Tem um novo café artesanal na esquina, e o comércio local é excelente. Todo mundo se conhece, as crianças brincam na rua… É um lugar cheio de vida.
Francine travou o maxilar.
“Cheio de vida” era um jeito educado de dizer “cheio de confusão”.
Mas sua mãe parecia disposta a sustentar a farsa até o fim.
Eleonor sorriu de leve, balançando a cabeça como quem achava tudo aquilo adorável.
— E pensar que Dorian um dia terá que visitar aquele bairro… imagine só, amor, — disse, voltando-se para o filho — você chegando com o carro da empresa, todo reluzente, passando pelas ruas estreitas e mal iluminadas. Seria o evento do ano por lá. As crianças certamente vão adorar.
Dorian franziu o cenho, desconfortável.
Ele nunca gostara de ser o foco de olhares, e a ironia de Eleonor não passou despercebida.
Francine manteve o olhar fixo no prato, os dedos se apertando no garfo com força.
— Ah, acho que isso infelizmente não vai acontecer — rebateu o pai de Francine, passando a mão pelos cabelos recém pintados de preto. — Estamos pensando em nos mudar para um bairro mais próximo. Assim poderemos visitar nossa filha com mais frequência.
Francine quase deixou o talher cair.
Distância era tudo que ela queria. E agora, graças àquela armação, parecia que estava prestes a perder até isso.
Era o seu pior pesadelo sendo narrado à mesa, com talheres de prata e taças de cristal.
Oscar arqueou uma sobrancelha, recostando-se na cadeira.
— Ah, é mesmo? Que interessante. Só espero que não se torne um problema… — Ele fez uma pausa proposital, mirando os dois. — Afinal, quanto mais próximos, mais fácil fica para a justiça notificar, não é?

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