O som do zíper ecoou pelo quarto de hotel.
Dorian fechava a mala com precisão cirúrgica, como quem empacota não apenas roupas, mas pensamentos que precisavam ficar no lugar.
Francine o observava sentada à beira da cama, abraçando o próprio travesseiro.
— Você tem certeza que não pode mesmo ficar mais uns dias? — a voz dela saiu quase num sussurro.
Dorian ergueu o olhar, e o sorriso breve que deu foi mais triste do que sereno.
— Se eu pudesse, cancelava o voo agora. — Ele se aproximou, sentando-se ao lado dela. — Mas o clima na empresa tá tenso, Fran. Se eu não estiver lá, vai parecer que perdi o controle. E esse é o tipo de cheiro que o mercado adora sentir.
Ela apoiou a cabeça no ombro dele.
— Eu entendo… mas entender não impede de doer.
Ele riu, passando o braço por trás dela.
— Você fala como se eu fosse pra outro continente. São só alguns dias até você ir também.
— “Alguns dias” que eu vou contar no relógio. — Ela se virou de frente pra ele. — Já estou com saudades.
Dorian segurou o rosto dela entre as mãos e beijou sua testa.
— Eu também, mas prometo compensar cada minuto longe de você.
— Espero que cumpra a promessa — provocou, tentando esconder o nó na garganta.
Ele levantou, pegou a mala e deu uma última olhada no quarto.
— Você vai arrasar nas sessões de fotos. A Montblanc vai te colocar em todas as vitrines, tenho certeza.
— Espero que pelo menos uma delas tenha você olhando — ela brincou.
Ele sorriu.
— Eu sempre olho. Mesmo quando finjo que não.
O beijo de despedida foi longo, carregado de silêncio e respiração.
Quando ele saiu, Francine ficou parada na porta, ouvindo o som dos passos desaparecerem no corredor, como quem esperava que ele voltasse de repente só pra dizer que desistiu do voo.
Mas o elevador fechou, e o vazio do quarto confirmou o inevitável.
Quatro dias depois, era Francine quem desembarcava de volta à cidade.
O cansaço pesava nas pernas, mas a sensação de voltar pra casa sempre trazia um conforto estranho.
Assim que tirou o celular do modo avião, ele vibrou com uma mensagem de Dorian.
“Não vou conseguir te buscar no aeroporto. Reuniões pesadas o dia todo. Assim que eu respirar, te ligo pra combinarmos de nos ver, ok?”
Francine leu e suspirou, digitando rápido:
“Acho bom cumprir a promessa, senhor CEO. Não me faça te colocar na minha lista negra”
Cada pétala parecia gritar a ausência de Dorian.
Ela se deixou cair no sofá e respirou fundo, tentando driblar o aperto no peito.
— Você quis independência, lembra? — disse a si mesma, num tom quase de repreensão.
Foi até o quarto, tirou a roupa e entrou no chuveiro.
A água quente escorrendo pelos ombros trouxe um alívio passageiro, mas também abriu espaço para o velho fantasma que ela pensava ter enterrado: a sensação de ser deixada para trás.
Lembrou-se dos dias em que ainda era criança e via os pais saindo, prometendo voltar “logo”, enquanto ela ficava sozinha com o relógio e a casa vazia.
Aquele eco de abandono, que ela jurava ter superado, voltou inteiro, como se o tempo tivesse dado uma volta para lembrá-la de que ainda doía.
Saiu do banho, colocou uma camiseta larga e se jogou na cama, encarando o teto.
— Ele vai ligar… — murmurou, tentando convencer o próprio coração. — Ele sempre liga.
Mas o celular, sobre o criado-mudo, permaneceu em silêncio.
Ela se virou de lado, abraçando o travesseiro, cercada pelo perfume das flores que ainda preenchiam o ar.
O cheiro doce misturava-se com a lembrança dele, e, antes que percebesse, as pálpebras se fecharam.
O último pensamento antes de adormecer foi uma promessa muda:
“Não vou deixar o passado me moldar outra vez.”

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