O chocolate derretia devagar na boca de Francine, enquanto ela observava Malu saborear o segundo bombom com a mesma expressão de quem fingia que não estava se deliciando.
— Tá vendo? — provocou Francine, cutucando a amiga com o pé — Esse aqui é o verdadeiro pós-almoço dos campeões.
— Campeões e desocupados — respondeu Malu, de boca cheia, rindo. — Se o seu agente visse a gente almoçando três vezes o peso em açúcar, ia infartar.
Francine apoiou o queixo nas mãos, os olhos brilhando com malícia.
— Me deixa, que eu só comi um bombom! Mas... falando em infartar… o Cassio é bonito, né?
Malu quase se engasgou com o bombom.
— O quê?
— Ah, não faz a Kátia sonsa não — insistiu Francine. — Ele ficou te olhando o almoço inteiro! Vocês dois formam um casal e tanto. Tipo o Superman e a Lois Lane.
Malu revirou os olhos.
— Ah, claro. Só faltou ele sair voando com a capa. Francine, ele é o vice-presidente de uma multinacional! Acha mesmo que um cara desses ia se interessar por mim?
Francine cruzou os braços, provocando.
— Engraçado, eu pensava a mesma coisa sobre Dorian. E olha onde a gente chegou.
— Não é a mesma coisa — rebateu Malu. — Vocês ficaram juntos sem ele saber quem você era. E, convenhamos, depois do chá que ele tomou, qualquer um teria se apaixonado por você.
Francine gargalhou.
— Então é só você dar um chá no Cassio também. Resolve rapidinho.
Malu pegou a almofada do sofá e tacou nela.
— Vai assistir um filme de romance, Francine! Tá criando fanfic demais na cabeça.
— Admite logo que ele te deixou balançada! — retrucou Francine, rindo e se protegendo com outra almofada.
— Admito que ele é bonito — cedeu Malu, cruzando os braços. — Aqueles ombros largos que parecem uma geladeira de três portas… Deus me livre, mas quem me dera.
As duas caíram na risada, e por alguns minutos ficaram quietas, assistindo a um filme qualquer na TV, o som baixo preenchendo o silêncio confortável.
Mas aos poucos, o riso de Francine foi sumindo.
Ela olhava fixamente para o nada, o chocolate esquecido na mão.
— Eu tô preocupada — disse, enfim, num tom mais baixo.
Malu virou o rosto, atenta.
— Com o quê?
— Com o Dorian. Com a empresa. Eu fico pensando que tudo isso começou a desandar por minha causa… tipo, a relação com o pai dele não era das melhores, mas piorou depois que eu entrei na vida dele.
Malu deu um suspiro leve.
— Fran, não viaja. Dorian tem experiência pra lidar com negócios, e com certeza não é a primeira vez que a empresa enfrenta problemas. Ele só tá enfrentando uma fase difícil.
Francine apoiou as costas no sofá, a testa franzida.
— Mesmo assim, eu me sinto meio… inútil, sabe? Eu quero ajudar, mas não sei como.
Malu colocou a mão sobre a dela, num gesto firme.
— Às vezes ajudar é justamente não se meter. Ele já tem um milhão de problemas pra resolver, e a última coisa que precisa é mais uma pessoa cobrando atenção. Você já ajuda muito ficando do lado dele, sendo compreensiva.
Francine sorriu de leve.
— Você sempre tem resposta pra tudo, né?
— Então faz o seguinte: se o Natan aparecer de novo, você me avisa. Eu dou um jeito nele com uma panela.
Francine riu, mas o riso saiu meio hesitante.
— Fechado. Mas espero que não precise.
As duas ficaram em silêncio por alguns instantes, ouvindo apenas o som do filme ao fundo e o farfalhar do papel dos bombons.
Quando a noite caiu, Malu se despediu de Francine com um abraço apertado e promessas de se falarem no dia seguinte.
Francine acenou da janela, observando a amiga entrar no carro de aplicativo.
Foi então que algo chamou sua atenção.
Do outro lado da rua, um carro preto estava estacionado.
As luzes estavam apagadas, mas ela jurava sentir um olhar a atravessar o vidro.
Francine franziu o cenho, tentando enxergar melhor.
O motorista, como se percebesse ter sido notado, ergueu o vidro lentamente, ligou o carro e partiu devagar, sumindo na curva da rua.
Por alguns segundos, ela ficou imóvel, o coração batendo mais rápido do que gostaria.
Respirou fundo, tentando se convencer de que devia estar imaginando coisas.
Ainda assim, uma sensação incômoda se instalou em seu peito.
Talvez fosse apenas coincidência.
Ou talvez não.

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