O vapor do café subia lentamente da xícara de porcelana, espalhando um aroma adocicado que não combinava com o olhar frio de Natan.
Ele estava sentado perto da janela, observando o movimento da rua com o mesmo tédio de quem assiste a um mundo que já não lhe pertence.
Na televisão da cafeteria, um programa de variedades animava a manhã.
Vez ou outra Natan olhava para a tela, registrava algo e voltava a observar o movimento urbano.
O apresentador comentava sobre as novas campanhas de moda e, entre risadas exageradas, o nome de Francine surgiu na tela.
— “A nova queridinha brasileira das passarelas mundiais”, — dizia a repórter, — “depois de desfilar em São Paulo e Milão, Francine Morais é apontada como o rosto favorito para os desfiles da Paris Fashion Week”.
As imagens mostravam uma sequência de fotos: Francine em catwalks, flashes, sorrisos ensaiados..
Natan parou de mexer o café. O barulho dos talheres, das conversas, tudo pareceu sumir por um instante.
— “E os boatos sobre o romance com Dorian Villeneuve continuam ganhando força... dizem que o empresário não desgruda dela nem nos bastidores!”
As imagens mudaram para fotos do casal trocando olhares em eventos, sussurros nos corredores dos desfiles.
O som da risada da apresentadora foi o suficiente.
Uma ira baixa, quase mecânica, começou a se formar em Natan.
Não era só ciúme, era mais profundo, como se cada menção ao nome deles fosse uma pedrada no vidro liso da sua paciência.
Ele empurrou a cadeira para trás, o metal rangendo contra o piso, e deixou uma nota de cem reais sobre a mesa sem sequer olhar para trás.
A porta do café bateu atrás dele com um estalo, e o ar frio o atingiu até que entrasse no carro estacionado a poucos metros da cafeteria.
Fechou a porta com um clique metódico e ligou o motor.
O rádio automaticamente acendeu em uma frequência de economia.
Vozes sérias falavam em termos que Natan recebeu como música aos ouvidos.
“...a Villeneuve Corporation divulgou seu balanço trimestral nesta manhã, com queda de quase vinte por cento nos lucros e sinais de retirada de alguns acionistas importantes. Analistas apontam para instabilidade e risco de reestruturação...”
Natan riu. Um riso seco, rouco, quase animalesco.
— E então, Villeneuve? — murmurou, com o olhar fixo na pista. — Gostando de provar do seu próprio veneno, desgraçado? Agora você vai ver o que é tentar manter uma empresa de pé quando tudo começa a ruir.
Natan inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa e mantendo o olhar fixo em Rafael.
— Tem certeza de que não tem possibilidade de alguém associar eles a mim? — perguntou, com uma risada cínica escapando entre os dedos que seguravam o cigarro.
— Sim. Fizemos tudo com cautela e atenção. Cada detalhe foi pensado para que não haja rastros que levem a você. — A voz de Rafael era firme, mas carregava um certo respeito misturado a uma pitada de apreensão.
Natan soltou a fumaça lentamente, sentindo o gosto amargo e familiar do tabaco.
— E o convite, já foi feito? — perguntou, a voz mais baixa, carregada de uma antecipação silenciosa.
— Ela só precisa dizer sim — respondeu Rafael, sem levantar os olhos dos papéis, como se a frase soasse natural, mas ao mesmo tempo, carregada de implicações.
Natan ficou um instante em silêncio, observando a fumaça do cigarro dançar pelo ar, e sentiu a satisfação rastejante de quem acredita que tem o controle total do que está por vir.
— Muito bem, Rafael. — disse ele, finalmente, puxando os contratos para mais perto. — Vamos revisar tudo mais uma vez. Quero ter certeza de que não deixamos nenhuma brecha. Cada detalhe precisa ser perfeito, porque se algo sair errado, eu quero estar seguro de que não será associado a mim.
Rafael assentiu, e começou a revisar os papéis, explicando cada cláusula e cada medida de precaução que haviam tomado.
Natan apenas acendia o próximo cigarro, e a sala continuava imersa naquele silêncio tenso, onde a fumaça subia preguiçosa, quase simbolizando o plano que ia tomando forma em sua mente.

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