O corredor do hospital cheirava a desinfetante e café requentado.
Francine já tinha perdido a noção das horas.
A última vez que olhou o relógio, eram quatro e pouco da manhã.
Agora, o sol se infiltrava pelas janelas, mas ela ainda estava com a mesma roupa, o mesmo corte de cabelo torto e os olhos fundos de quem não piscava desde a noite anterior.
Quando o médico apareceu no corredor, ela quase pulou da cadeira.
— Doutor! Ele vai ficar bem, não vai? — perguntou, com a voz trêmula.
O médico ajeitou os óculos no rosto, adotando aquele tom calmo que mais parece ensaiado.
— O senhor Villeneuve teve muita sorte. O impacto da explosão causou apenas ferimentos superficiais e uma leve concussão. Nada grave. O que preocupava era o trauma auditivo pela onda de choque, mas os exames iniciais mostram que ele vai se recuperar totalmente.
Francine suspirou, sentindo o corpo finalmente relaxar.
— Então ele vai acordar logo?
— É o que esperamos. Ele precisa apenas de repouso. — O médico sorriu, ajeitando o estetoscópio pendurado no pescoço — Ele é resistente.
“Resistente”, pensou ela, entre alívio e ironia.
Dorian era fanático por calistenia. Era de se esperar a resistência.
Ela agradeceu, e foi até a cantina buscar café, o primeiro gole decente nas últimas 24 horas.
O barulho dos passos ecoava no corredor quando ela ouviu o alvoroço.
Enfermeiras correndo.
Alarmes apitando.
Um bip contínuo vindo do quarto de Dorian.
O coração dela parou.
O café voou da mão dela, e Francine disparou pelo corredor.
— O que aconteceu?! — gritou, empurrando as enfermeiras no caminho. — Ele tava bem! Vocês disseram que ele tava bem!
As enfermeiras tentavam se organizar em volta do leito, algumas conferindo a máquina, outras chamando pelo médico.
Francine chegou ofegante, com o peito subindo e descendo em desespero, e foi então que viu Dorian, sentado na cama, completamente acordado, com os cabelos bagunçados e cara de quem não fazia ideia do caos que tinha causado.
Os fios e sensores estavam jogados no chão.
Ele olhou em volta, confuso.
— Que gritaria é essa?
Francine ficou parada na porta, sem conseguir decidir se ria, chorava ou dava um soco nele.
A enfermeira, ainda sem ar, respondeu:
— O senhor... arrancou todos os sensores do monitor cardíaco.
Dorian piscou, olhando para os fios espalhados.
Antes que ele pudesse inventar uma desculpa o médico entrou acompanhado de duas enfermeiras que pareciam prontas para uma operação de guerra.
— E quanto a lembrar de mim?
Dorian piscou, fingindo um ar confuso.
— Então... acho que lembro de ter dançado com você. — A pausa foi calculada. — Mas não tenho certeza se lembro de você ser boa de cama. Acho que vou precisar de um reforço de memória.
— Seu idiota! — Francine deu um tapa no peito dele, o coração ainda acelerado, mas agora misturado com um alívio que quase doía.
— Ai! — ele fingiu dor, mas o sorriso denunciava a farsa. — Se continuar me agredindo, vou chamar os seguranças.
— Pode chamar — ela retrucou, cruzando os braços. — Eu aviso que você tá delirando e eles te amarram na maca.
— E o que pretende fazer comigo amarrado na maca?
Francine riu, a expressão suavizando.
Dorian puxou Francine de volta, envolvendo-a num abraço firme, o tipo de abraço que não deixava espaço pra mais nada no mundo.
— Eu também tive medo de te perder — confessou, a voz rouca, o queixo apoiado no topo da cabeça dela. — E olha que não costumo sentir medo de nada.
Ela se acomodou contra ele, os dedos brincando com o tecido do avental hospitalar.
— Da próxima vez — murmurou, baixinho — tenta resolver as coisas sem se explodir, tá bom?
Ele riu, os lábios roçando o ouvido dela.
— Prometo. Mas não posso prometer que não vou perder a cabeça com você de novo.
Francine suspirou, meio divertida, meio derretida, e apenas apertou o abraço, sentindo o coração dele bater sob o dela, firme, teimoso, vivo.

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