Pela manhã Malu abriu os olhos, incomodada com a luz natural que atravessava a janela como uma lâmina brilhante.
A ressaca bateu forte.
Boca amarga. Cabeça latejando.
Sentou-se na cama com dificuldade, sentindo as pernas bambas e a garganta seca como papel.
Passou as mãos pelos cabelos completamente bagunçados, tentando lembrar como tinha ido parar ali.
Nada. Vazio absoluto.
A visão já tremulava, o estômago ameaçava protestar, e a única coisa que conseguiu pensar foi:
“Água. Jesus amado… água.”
Tropessando nos próprios pés, ela caminhou até a janela e puxou a cortina com certa violência, derrubando metade da luminosidade que queimava seus olhos.
Virou-se, pronta para se arrastar de volta à cama e renegociar sua existência.
E parou.
Congelou.
Cassio estava ali. Na cama de Francine. Dormindo tranquilamente.
Sem camisa.
Espalhado pelos lençóis como se fosse a própria capa da GQ — Edição Especial: Amigos do Noivo.
— Cassio??? — ela arfou, a voz saindo fina, estrangulada.
Ele abriu os olhos devagar, preguiçoso, com aquele ar de quem ainda estava parcialmente em outro plano espiritual.
Focou o olhar nela. Um sorriso sonolento surgiu no canto da boca dele.
— Eu tô sonhando? — ele murmurou, voz rouca de sono. — Que visão maravilhosa é essa?
Foi aí que Malu percebeu. Percebeu MESMO.
Ela estava só… de calcinha.
Nada de vestido.
Nada de corpo coberto.
Nada de dignidade.
O choque veio como um raio.
Ela tampou os seios com uma mão instintivamente, enquanto com a outra puxava o lençol da cama num movimento desesperado para se cobrir.
— O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO NO MEU QUARTO?! — ela praticamente gritou, com a voz falhando no final.
Cassio piscou algumas vezes, sentando-se devagar, como quem acorda no meio de um terremoto.
— Ah, era óbvio que você ia se esquecer…
— COMO É QUE É?! — Malu arregalou os olhos, o coração disparando. — Você… você se aproveitou de mim sabendo que eu tava bêbada?!
— O quê?! — Cassio arregalou os olhos, completamente indignado. Ele se sentou tão rápido que quase caiu da cama. — Não! Claro que não! Do que você tá falando?!
Ela avançou, segurando o lençol contra o peito como um escudo medieval.
— ENTÃO ME EXPLICA POR QUE EU ACORDEI QUASE NUA, NO MEU QUARTO, COM VOCÊ SEM CAMISA DO MEU LADO!
Ela piscou, confusa.
— Além da cabeça, não.
— Pois é. — Ele cruzou os braços, como quem encerra o assunto. — Isso é prova mais do que suficiente.
Malu sentiu o rosto pegar fogo, a vergonha queimando cada neurônio.
— Cassio… — ela apontou para a porta, tentando manter a dignidade. — Sai. Agora. Do meu quarto!
Ele levantou as sobrancelhas, ofendido, mas não discutiu.
Pegou a camisa amassada, vestiu sem abotoar, e caminhou até a porta.
Antes de sair, olhou por cima do ombro.
— E só pra constar… se eu quisesse me aproveitar de você, Malu… você teria lembrado. — Sua voz ficou mais baixa. Mais séria. — Mas eu não sou esse tipo de homem. Nunca fui. Nunca serei.
Ele saiu, batendo a porta com firmeza.
Malu ficou ali.
Respirando rápido.
De lençol até o queixo.
O coração em guerra com a própria memória falha.
E então murmurou:
— Tá. Talvez eu tenha surtado um pouco.

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