O carro avançava pelas ruas de Paris em silêncio, aquele silêncio que não era confortável, mas também não era hostil.
Era apenas… cheio de coisas não ditas.
Malu mantinha os óculos escuros como uma armadura e o casaco fechado até o pescoço, mesmo não estando frio.
Era mais uma proteção emocional do que térmica.
Cassio dirigia sem dizer uma palavra, concentrado na estrada como se a vida dependesse da constância do acelerador.
O sol aparecia e desaparecia atrás das nuvens, criando pontos dourados nas fachadas antigas dos prédios.
Era uma manhã bonita, mas gentil, sem sol forte, sem vento gelado, perfeita para alguém que estava lutando contra uma ressaca e uma avalanche de vergonha.
Quando o carro entrou pela avenida lateral do Jardin du Luxembourg e estacionou, Malu finalmente abriu a boca pela primeira vez desde o café da manhã.
— Nossa… — ela sussurrou, tirando os óculos para enxergar melhor.
A entrada do jardim era imensa, com canteiros impecavelmente alinhados, flores perfeitas, gramados sem defeito, esculturas clássicas distribuídas como se fossem parte natural da paisagem.
E ali, no centro de tudo, imponente e elegante…
O Palácio de Luxemburgo parecia saído de um filme.
Malu ficou paralisada por alguns segundos.
— Caramba… isso é tipo a matriz dos castelos? — ela perguntou, ainda perplexa.
Cassio sorriu de leve.
— É bonito mesmo.
— Bonito? — ela repetiu, indignada. — Isso aqui dá um coro na mansão do Dorian! — apontou para o palácio. — Olha isso! A cozinha desse negócio deve ter mais ouro que o cofre do tio Patinhas.
Cassio soltou uma risadinha involuntária, e ela fingiu que não percebeu.
Eles começaram a caminhar pelo jardim.
O cheiro de grama recém-cortada era suave, misturado com o perfume leve das flores e o som distante de crianças correndo perto do lago.
Vez ou outra uma rajada de vento levantava folhas e Malu se encolhia, segurando o vestido com as mãos.
— Olha essas cadeirinhas… — ela comentou, observando pessoas sentadas em cadeiras verdes de ferro. — Parecem tão francesas que se eu sentar, acho que automaticamente vou aprender a pedir licença em francês.
— Vai continuar falando errado — Cassio provocou.
— Cala a boca — ela rebateu, mas sem irritação real.
Depois de alguns minutos caminhando entre as alamedas, Cassio apontou para uma área sombreada.
— Vamos sentar um pouco? Só pra apreciar a vista.
Ela hesitou.
Mas a sombra parecia tão convidativa…
E suas pernas estavam oficialmente entrando em greve.
— Tá — ela concedeu. — Cinco minutos. Não quero ficar demais pra não me acostumar com essa vida de princesa europeia.
Sentaram-se frente a frente em duas cadeirinhas de ferro sob uma árvore alta.
A vista era realmente linda: o lago com mini barquinhos infantis, o palácio ao fundo, o céu salpicado de nuvens claras.
Mas Cassio não estava olhando nada disso.
Ele estava olhando para ela.
Sem disfarçar.
Sem pudor.
Sem pressa.
Como se a imagem da manhã, ela seminua, enrolada no lençol, arrepiada de vergonha, tivesse ficado gravada na retina dele.
Malu percebeu o olhar.
E claro, resmungou:
— Você não vai apreciar a vista, não?
Cassio deu de ombros.
— Nenhuma vista supera a que eu tive quando acordei.
Ela ficou imóvel por meio segundo.
Depois, levantou tão rápido que quase derrubou a cadeira.
— Ah, não! — ela gesticulou. — Não, não, NÃO! Eu não acredito que você falou isso de novo!
— Malu, eu tava brincando! — Cassio se levantou também, segurando o braço dela quando ela tentou sair andando a esmo pelo jardim. — Calma, eu tô brincando, juro.
— Você não entende! — ela reclamou, a voz embargada. — Você não faz ideia do quanto aquilo foi constrangedor pra mim! Eu… eu acordei vendo você! E quase nua! Isso é surreal, Cassio! Eu queria morrer!
Ele parou.
Respirou fundo.
Sem irritação dessa vez.
— Foi por isso que eu pedi desculpa — disse, mais sério. — Não era essa a minha intenção. Mas… pensa comigo.
Ele pausou antes de continuar.

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