O elevador ainda nem tinha terminado de abrir por completo quando Cassio inclinou levemente a cabeça, analisando Malu como quem acaba de encontrar uma coincidência boa demais para desperdiçar.
O sorriso dele veio lento, travesso, com aquela confiança irritante que parecia vir instalada de fábrica.
— Está me seguindo? — ele provocou, inclinando levemente a cabeça, como quem saboreia a pergunta.
Malu arfou, indignada.
— Claro que não! — Malu rebateu na hora. — Você é que tá! O que você tá fazendo aqui?
Cassio deu um passo pra fora do elevador, como se estivesse entrando no próprio território.
— Eu moro aqui.
As portas se fecharam atrás dele com um ding suave, deixando-a ali, paralisada, segurando as malas como se fossem escudos contra a informação absurda que tinha acabado de receber.
Ela piscou.
Cassio continuou olhando para ela, divertido, os olhos descendo até as malas enormes ao lado dela.
— Está de mudança? — ele perguntou, com aquela naturalidade que deixava ela inquieta. — Vejo que agora você é oficialmente minha vizinha.
— Não é possível… — Malu ajeitou a alça da mala, envergonhada e ainda processando tudo. — Eu só queria alugar um cantinho pra mim.
Cassio sorriu. Lento. Confiante. Vitória estampada no rosto.
— Isso merece uma comemoração. — Ele levantou a mão, como quem anuncia algo óbvio. — Às 20h, eu levo o champanhe.
Ela arregalou os olhos.
— Como assim? Você nem sabe em que apartamento eu estou!
Cassio ergueu uma sobrancelha, metido.
— Claro que sei. 302. O único disponível para locação.
Malu ficou incrédula. Literalmente com a boca entreaberta.
— Mas… como você…?
— Informação privilegiada. — Ele piscou. — Passo muito tempo conversando com o síndico. O homem é um ótimo parceiro de xadrez.
— Você j**a xadrez? — Malu perguntou, confusa.
— Jogo melhor do que você fala francês.
Malu mordeu o lábio para não rir e não estrangular ele ao mesmo tempo.
Cassio olhou o relógio.
— Bom, eu tenho que ir trabalhar — anunciou, já andando em direção à portaria. — Até mais tarde. Ah, e seja bem-vinda.
A forma como ele disse aquilo, simples, com a voz baixa e firme, deixou o coração dela completamente desgovernado.
Quando ele atravessou a portaria e desapareceu do campo de visão, Malu continuou parada no mesmo lugar.
Um. Dois. Três segundos.
Até que finalmente recobrou a consciência e apertou o botão do elevador outra vez, quase tropeçando nas próprias malas.
— Não… não… isso não pode estar acontecendo — murmurou, entrando no elevador com a mão na testa, sentindo as bochechas queimarem.
Na cozinha ela percebeu outro detalhe: não tinha absolutamente nada na geladeira além de um limão esquecido do último morador.
— Não posso começar a vida assim — ela resmungou. — Não é por ele. É organização. Maturidade. Vida adulta.
Pegou a bolsa e desceu até o supermercado da esquina.
Lá dentro, escolheu coisas “básicas”: queijo brie, presunto parma, salame italiano, geleia artesanal, azeitonas especiais e uma caixinha de biscoitos importados.
— Isso aqui… — ela murmurou, colocando tudo no carrinho. — É só pra não ficar com fome. Nada demais. Bandeja de frios é comida prática. Autossuficiência. Independência.
De volta ao apartamento, tomou um banho demorado, o tipo que relaxa até os pensamentos.
Quando saiu, enrolada na toalha, abriu a mala e olhou suas roupas.
Uma camiseta velha? Um pijama gostoso? Ou…
Um vestido leve, confortável, bonito na medida ideal, aquele que por algum motivo ela quase nunca tinha usado.
Ela pegou o vestido.
— É só porque é fresquinho — justificou. — O tecido respira. E eu quero conforto. Só isso.
Claro.
Secou o cabelo, passou um hidratante com cheiro de baunilha e gloss nos lábios “só porque estava ressecado”.
Arrumou a bandeja de frios na mesa da sala. Tudo perfeitamente simétrico. Ajeitou mais uma vez as almofadas. Olhou no espelho.
E respirou fundo.

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