Malu acordou com a agitação da rua lá embaixo, carros passando, buzinas ocasionais, gente conversando no ponto de ônibus.
Aquela música urbana que vinha da janela aberta.
Ficou alguns minutos encarando o teto, quieta, até o primeiro pensamento perigoso aparecer:
O beijo.
O beijo quente, lento, viciante.
O beijo que ela não deveria ter dado, mas também não conseguiu nem por um segundo evitar.
E junto com o beijo, veio a cena patética: ela expulsando o homem do apartamento como se estivesse contendo um incêndio criminoso.
— Meu Deus do céu… — murmurou, apertando os olhos. — Eu sou uma vergonha nacional.
Tentou se convencer de que não era, mas a lembrança da mão dele na nuca, do beijo lento que a fez derreter inteira… não ajudava.
Depois de um tempo, levantou com um suspiro dramático e decidiu fazer a coisa mais “terapia caseira” possível: bolo.
— Café fresquinho e um bolo resolvem qualquer vida emocional bagunçada — decretou.
Foi até a pequena cozinha, abriu as portas dos armários, encontrou farinha, açúcar, ovos… e então abriu a geladeira.
Nada de fermento.
Malu encarou o vazio, indignada.
— Ótimo — bufou. — Ontem eu comprei queijo brie, geleia artesanal, biscoito importado… e esqueci do fermento. Brilhante, Malu.
Decidida, trocou de roupa: short jeans, baby look preta, tênis e um rabo de cavalo despretensioso que, por algum motivo, a deixava ainda mais bonita sem esforço.
Pegou a bolsa, fechou a porta e chamou o elevador.
O visor descia lentamente…
8
7
6
5…
Malu respirou fundo, repetindo mentalmente:
"Ele não vai estar aí. Ele deve estar trabalhando. Ele tem uma vida. Ele não tem telepatia…"
DING.
A porta abriu.
— Ah, não. — Malu engoliu seco.
Cassio estava lá dentro.
Camisa social cinza, gravata afrouxada como se não tivesse tido tempo nem vontade de ajeitar.
O cabelo preto e grosso penteado para trás de um jeito despretensiosamente perfeito.
O ambiente tomado pelo perfume… indecente.
Malu ergueu uma mão no ar, teatral.
— Eu acho melhor pegar as escadas. Nada como um bom cardio pela manhã, né?
Cassio arregalou os olhos por um segundo… e soltou uma risada curta.
— Se você diz.
Ele segurou a porta com o braço estendido, mas não insistiu.
Deixou que ela fugisse, com uma expressão que era metade diversão, metade provocação silenciosa.
Malu saiu em disparada para a escada, descendo os lances com o coração colado na garganta.
Quando chegou no saguão, virou para todos os lados, procurando qualquer sinal dele.
— COMO É QUE É?! — Francine gargalhou do outro lado. — Eu fico três dias sem contato emocional e você já tá chamando ele pra sua casa? Gente… o clima de Paris é REALMENTE romântico.
Malu tampou o rosto.
— Ai, amiga, nada a ver! Acontece que… por uma coincidência ridícula do universo, o apartamento que eu aluguei é no mesmo prédio onde ele mora. E por outra coincidência ele me viu chegando e se ofereceu pra uma festinha de boas-vindas.
— E por outra coincidência você caiu nos braços dele?!
Malu abriu a boca para negar.
Fechou.
Abriu.
Fechou.
Silêncio.
— Meu Deus. — Francine sussurrou, chocada. — Você caiu mesmo.
— Francine…
— Não venha com “Francine”. Você vai me contar isso DIREITO. Manda o endereço. Mais tarde eu apareço aí. Temos MUITO o que conversar.
E desligou antes que Malu pudesse respirar.
Malu largou o celular na cama e caiu para trás, encarando o teto.
— Pronto… agora ferrou de verdade.
Mas no fundo, no fundo…
Ela sabia que o problema não era a fofoca da Francine.
O problema era o homem no elevador.
E o beijo que ela ainda sentia nos lábios.

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