A manhã tinha começado de um jeito tão incomum que até os funcionários mais antigos da empresa soltaram discretos comentários.
Cassio entrou no prédio como quem atravessa o próprio reino. Terno impecável, sorriso fácil, passos leves.
A diferença era absurda.
Nas três semanas anteriores, ele parecia um executivo recém-saído de um terremoto emocional: olheiras fundas, mau humor, silêncio e café.
Muito café.
Quase tóxico.
Mas hoje?
Hoje ele cumprimentou até o segurança da garagem pelo nome.
Pegou o elevador assobiando uma música que ninguém reconheceu.
E, quando chegou ao andar da diretoria, a secretária de Dorian o encarou como quem vê um milagre registrado no ponto eletrônico.
— Bom dia, Natalia! — Cassio disse, abrindo um sorriso de propaganda de pasta de dente.
Natalia piscou.
Duas vezes.
— Bom… dia… senhor Bachinni.
Ele deu um tchauzinho e entrou na própria sala, deixando a porta aberta, mexendo em papéis, abrindo janelas, como se estivesse reorganizando o próprio humor.
Cinco minutos depois, Dorian apareceu na porta.
Bateu duas vezes no batente.
— Quem é você e o que fez com o meu vice-presidente? — perguntou, impassível, mas com um brilho curioso nos olhos.
Cassio sorriu torto.
— O original voltou, chefe.
— Aham. — Dorian cruzou os braços. — E o que tirou o zumbi das minhas planilhas?
Cassio deu de ombros, fingindo desimportância… mas o sorriso entregava tudo.
Dorian não era burro.
— Malu? — perguntou, direto.
Cassio soltou uma risada baixa, desviando o olhar para a mesa.
— Talvez.
Dorian entrou, fechou a porta com o pé e se sentou na cadeira em frente.
— “Talvez”, ele diz. Depois de três semanas com cara de viúvo de um casamento que nunca aconteceu.
Cassio passou a mão pelos cabelos, rindo.
— A gente conversou. Finalmente.
— Então resolveu? — Dorian perguntou.
Silêncio por um segundo. Um daqueles que diz mais do que qualquer frase.
— Por enquanto… sim. — Cassio confessou. — Não vou estragar de novo.
Dorian assentiu, satisfeito.
— Ótimo. Já era hora de você parar de olhar pela janela como se fosse um personagem de romance.
Cassio jogou um clipe nele, mas Dorian sequer fez menção de desviar.
— Me erra. — Cassio resmungou.
— Eu? Você que estava há semanas doente de saudade.
Cassio ia retrucar, mas o celular vibrou na mesa.
Ele olhou a tela.
A expressão mudou. Não para tristeza, mas para alerta.
Walter Diniz — chamada de voz.
Dorian ergueu uma sobrancelha.
— Vai atender?
Cassio respirou fundo e atendeu.
Cassio ficou quieto, absorvendo aquilo.
Dorian se inclinou para frente.
— E quanto ao almoço… não é uma traição ir.
— Você acha? — Cassio perguntou, com um fio de hesitação que raramente mostrava.
— Claro que não. — Dorian respondeu. — O que importa é o que você faz depois do almoço. Você já sabe qual é a sua escolha. Então vá. Olhe nos olhos de todo mundo, agradeça, seja educado. E depois siga a sua vida. Com quem você escolheu.
Aquela última frase caiu direto no peito do Cassio.
Ele respirou fundo.
— Eu não quero perder a Malu.
— Então não perca. — Dorian levantou. — Você só perde quem não luta para manter.
Cassio sorriu de lado.
— Quando foi que você virou bom conselheiro?
— Casei. — Dorian disse simplesmente.
Cassio riu, verdadeiro.
— Pior que faz sentido.
Antes de sair, Dorian apontou para a expressão animada do amigo.
— Mas devo admitir: prefiro você assim. Animado. Irritante. Metido. Dá menos medo.
Cassio riu mais forte.
— Vai trabalhar, presidente.
— Trabalhe você. Eu já faço o suficiente por dois.
E saiu, deixando Cassio sozinho na sala, encarando o celular desligado.
Sabia que domingo não seria fácil.
Mas dessa vez ele estava preparado. E decidido.

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