Malu estava apoiada na bancada da cozinha, ainda de pijama, tomando café sem pressa.
A manhã entrava preguiçosa pela janela, iluminando o apartamento com aquela luz clara que costumava deixá-la de bom humor.
No celular, ela rolava o feed distraída, curtindo fotos que não via de verdade, quando a notificação apareceu no topo da tela.
Cassio.
Ela abriu a mensagem.
“Você tem algum analgésico aí? Esqueci de comprar e tô com dor de cabeça. Se puder deixar no apê, a porta vai ficar aberta enquanto eu tomo banho.”
Ela leu uma vez. Depois outra.
— Ah, então agora você aparece… — resmungou, levando a caneca à boca.
A noite inteira sem notícias.
Nenhuma mensagem. Nenhum “cheguei”, nenhum “tô vivo”, nada.
E agora aquilo.
Ela apoiou o celular na bancada e ficou alguns segundos olhando para o nada.
Parte dela queria responder atravessado. Outra parte queria perguntar se estava tudo bem.
Mas o tom da mensagem era tão… normal, tão cotidiano, que desarmava qualquer indignação maior.
— Bonito, Cássio. — resmungou. — Some a noite toda e reaparece assim, como se nada tivesse acontecido.
Mesmo contrariada, ela se levantou e foi até o quarto trocar de roupa.
Depois abriu o armário, pegou o analgésico e colocou no bolso.
Por fim, calçou uma rasteira, passou a mão no cabelo só para ajeitar o básico e saiu.
Parte dela queria não ir.
Outra parte pensou que talvez ele estivesse realmente mal, talvez tivesse sido uma noite difícil, talvez precisasse dela.
O elevador subiu rápido demais para o ritmo do estômago dela, que começava a se contrair com uma ansiedade estranha, daquelas que não têm nome, só aviso.
Quando a porta do elevador se abriu no andar dele, Malu respirou fundo e seguiu pelo corredor até a cobertura.
A porta estava destrancada, exatamente como a mensagem dizia.
Ela entrou.
— Cássio? — chamou.
O apartamento estava silencioso. Nenhum som de água, nenhum movimento.
Deu mais alguns passos na intenção de colocar o remédio sobre a mesa.
Foi então que ouviu o barulho da porta do quarto se abrindo.
O coração dela acelerou, e por um segundo ela sorriu, esperando vê-lo aparecer, talvez só de toalha, talvez com aquele sorriso torto de quem sabia que tinha aprontado.
Mas não era Cássio.
Não chorou.
Ficou parada, sentindo o sangue pulsar nos ouvidos, o corpo gelar de dentro para fora.
Tudo o que ela tinha construído nas últimas semanas, a confiança, a entrega, a promessa silenciosa, se despedaçava diante daquela imagem.
Quando Bianca desapareceu no quarto, Malu finalmente encontrou a própria voz.
— Não precisa ter pressa de ir embora — disse, fria, firme. — Eu não tenho nada pra fazer aqui.
Virou as costas e saiu.
Assim que a porta se fechou atrás dela, Malu bloqueou o número de Cássio com um movimento seco, automático, como quem arranca um curativo antes de pensar na dor.
Os olhos arderam.
Ela saiu do apartamento sem olhar para trás, entrou no elevador e, assim que as portas se fecharam, as lágrimas vieram de uma vez.
Com as mãos trêmulas, discou o número de Francine.
— Amiga… — a voz falhou no primeiro segundo. — Preciso de você.
Dentro do apartamento, Bianca vestiu uma roupa qualquer às pressas, pegou o elevador de serviço e saiu do prédio sem olhar para trás.
Já do lado de fora, puxou o celular e digitou rápido, com um sorriso satisfeito nos lábios.
“Maya, tudo correu exatamente como planejamos. Churrasco lá em casa pra comemorar?”
O estrago estava feito.

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