Cássio chegou ao escritório naquele dia como se estivesse carregando o próprio peso nos ombros.
O reflexo no vidro da sala dele confirmava o que Dorian já vinha insinuando: o terno estava amarrotado, a barba por fazer, os olhos fundos que denunciavam noites mal dormidas, ou mal vividas.
Um homem que perdeu o eixo, e ele sabia disso.
Sentou-se à mesa, abriu o computador, encarou a tela… e não absorveu absolutamente nada do que aparecia ali.
Planilhas, relatórios, números.
Tudo parecia irrelevante diante da única coisa que ocupava sua cabeça: Malu tinha sumido.
Não só do prédio. Da vida dele.
Dorian percebeu logo de cara.
Parou na porta da sala, observou o amigo por alguns segundos e soltou um suspiro pesado.
— Você tá assustando até o RH — comentou. — Pelo amor de Deus, Cássio… quando foi a última vez que você se olhou no espelho?
Cássio levantou os olhos devagar.
— Não sei. E não me importo.
— Pois devia. — Dorian entrou e fechou a porta atrás de si. — Você parece um homem das cavernas que perdeu o fogo.
Cássio soltou um riso seco, sem humor, arrastando os dedos pela barba por fazer..
— Perdi algo muito mais importante que o fogo…
Dorian se apoiou na mesa.
— Olha, eu já falei o que tinha pra falar. Corre atrás, descobre o que aconteceu, mas enquanto isso… pelo menos faz a barba. Você sempre foi vaidoso demais pra se deixar assim.
Cássio ficou em silêncio por alguns segundos. Depois respirou fundo.
— Tá. — disse, rendido. — Vou dar um jeito nisso.
Saiu do escritório no início da tarde e seguiu direto para a barbearia que frequentava há anos.
Era quase um ritual semanal.
Ali, ele não era o vice-presidente da Villeneuve Corp. Era só o Cássio.
O barbeiro abriu um sorriso assim que o viu entrar, sorriso esse que morreu no meio do caminho.
— Rapaz… — ele disse, tirando a toalha do ombro. — O que aconteceu com você? Fazendo muita hora extra?
Cássio se sentou na cadeira e encarou o próprio reflexo no espelho.
— Antes fosse — respondeu, sem paciência. — Pelo menos eu estaria ganhando dinheiro.
O barbeiro riu, colocando a capa preta sobre ele e começando a preparar os instrumentos..
— Ah, meu amigo… o que o pessoal não faz por dinheiro, né? — comentou, casualmente. — Esses dias mesmo veio um médico aqui contando que fez hora extra a pedido de uma paciente.
Cássio fechou levemente os olhos, tentando relaxar. Ele estava cansado, mas não podia se dar ao luxo de mostrar fraqueza.
— É mesmo?
— É. — o barbeiro continuou, como quem não via nada demais. — A moça precisava que o irmão ficasse a noite toda com ela no hospital, sabe-se lá por quê. Ele ficou lá plantado a madrugada inteira, sendo que dava pra liberar a mulher em poucas horas. Mas enfim… pelo menos levantou uma grana boa.
Cassio ficou imóvel.
As palavras do barbeiro pareceram ecoar por dentro dele, como um relâmpago que iluminava a escuridão em sua mente.
Ele começou a tentar juntar as peças.

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