Cássio terminou de tomar banho como se tivesse lavado a alma.
O espelho refletia um rosto diferente do homem de dias atrás. Ainda cansado, sim, mas agora havia foco.
Controle.
Saiu do banheiro e encontrou o chaveiro que terminava de apertar os últimos parafusos da fechadura nova.
— Pronto, senhor. — disse o homem. — Só essas chaves funcionam agora.
Cássio pegou o molho, testou uma vez, duas.
— Obrigado.
Assim que ficou sozinho, vestiu o paletó, pegou o celular e saiu em direção ao hospital em que Maya havia sido atendida.
Foi direto ao balcão de atendimento.
— Bom dia. — disse, educado. — Preciso falar com o doutor Lucas. Assunto pessoal.
A atendente digitou algo no computador.
— Ele está em atendimento no momento…
Cássio sorriu de canto, aquele sorriso treinado em reuniões difíceis.
— Eu espero. — disse. — Ou posso falar com a coordenação médica sobre o plantão da última semana.
Ela ergueu os olhos, avaliando.
— Vou ver se consigo chamá-lo.
Minutos depois, uma enfermeira apareceu e pediu que ele aguardasse perto do corredor dos consultórios.
Lucas surgiu alguns instantes depois.
Reconheceu Cássio no mesmo segundo.
— Senhor Bachinni… — disse com um sorriso que tentava esconder a tensão — Algum problema com os exames da sua irmã?
— Vamos conversar ali. — Cassio apontou para uma sala vazia.
Lucas hesitou por um instante, mas entrou.
Assim que a porta se fechou, o clima mudou.
Cássio cruzou os braços.
— Não vou perder tempo. — disse, direto. — Eu sei que a minha irmã te pagou pra mantê-la internada aquela noite inteira.
Lucas abriu a boca para responder, mas Cássio continuou.
— Também sei que não havia indicação clínica real pra isso. — deu um passo à frente. — E sei que, enquanto você “ganhava uma grana”, eu estava preso aqui… enquanto a vida pessoal que eu estava tentando construir era destruída.
O médico engoliu seco.
— Eu… — tentou. — Isso não é bem assim…
— É exatamente assim. — Cássio cortou, a voz baixa, controlada. — E agora você vai me ouvir com muita atenção.
Lucas sentiu o peso do silêncio.
— Você tem duas opções. — Cássio disse. — A primeira: você me fornece, oficialmente, um documento e as imagens internas que comprovem que eu permaneci aqui a noite inteira como acompanhante da paciente Maya Bachinni. Horários. Registros. Tudo.
— Eu não posso simplesmente…
— Pode. — Cássio interrompeu. — Porque se não puder, vamos para a segunda opção.
Ele se inclinou levemente, aproximando o rosto.
— Eu abro uma denúncia formal. — disse, pausado. — No hospital. Na polícia. No CRM. Com advogado. Com perícia. Com a palavra “suborno” escrita em letras bem grandes.
Lucas empalideceu.
— Isso destruiria minha carreira…
— Exato. — Cássio assentiu. — E o dinheiro que a minha irmã te pagou não compra um juiz. O meu, sim.
O médico passou a mão pelo rosto, nervoso.
— Eu… eu posso conseguir os registros do setor de segurança. — disse, por fim. — Vai levar algumas horas.
— Você tem até o fim do dia. — respondeu Cássio. — Depois disso, eu paro de conversar.
Lucas assentiu, derrotado.
Cássio abriu a porta.
Antes de sair, voltou-se uma última vez.
— Só pra deixar claro: isso não é vingança. — disse. — É reparação.
Lucas saiu da sala logo depois dele e reapareceu no início da noite.
A recepcionista chamou Cássio discretamente.
— O doutor Lucas está lhe aguardando na sala administrativa.
Ele se levantou sem pressa e caminhou até lá.

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