Cássio entrou no escritório de Dorian sem bater.
O terno estava passado, a barba recém-feita, o cabelo alinhado, mas nada disso conseguia esconder as olheiras profundas, e o olhar que carregava aquela mistura perigosa de culpa e urgência.
Ele não parecia o vice-presidente impecável de sempre, parecia um homem que passou dias sobrevivendo à própria cabeça.
Dorian levantou os olhos do notebook e, antes mesmo de falar qualquer coisa, entendeu.
— Pelo visto… — disse, apoiando-se na cadeira — você descobriu o que foi que aprontou.
Cássio fechou a porta atrás de si e respirou fundo.
— O que aprontaram comigo, você quer dizer. Se você soubesse o que eu descobri… — começou, andando de um lado para o outro. — Eu fui um idiota. Um idiota completo.
Dorian cruzou os braços e se recostou na cadeira.
— Senta. — ordenou, com calma. — E me conta tudo. Do começo.
Cassio sentou-se na cadeira à frente da mesa, passando a mão pelos cabelos como quem ainda tentava organizar a avalanche.
— Maya armou tudo. — começou, direto. — Inventou uma suspeita de gravidez pra me forçar a ir ao hospital com ela. Pagou um médico pra segurar os exames a noite inteira. Mandou uma mensagem para Malu como se fosse eu. Enquanto isso, Bianca foi até o meu apartamento… e fez a cabeça da Malu dizendo que tinha passado a noite toda comigo.
A mandíbula de Dorian se contraiu.
— Filhas da puta. — murmurou, sem qualquer diplomacia.
— Eu vi nas imagens. — continuou Cássio. — Do hospital. Do prédio. Do corredor. Tudo. Castiguei a Maya. Cortei tudo, também. Dinheiro, cartão, carro, privilégios. E confrontei a Bianca. Definitivamente. Ela não chega mais perto de mim nem se quiser.
Ele fez uma pausa curta, a voz baixando.
— Mandei tudo pra Francine, e ela me contou o que a Bianca tinha falado pra Malu.
Dorian permaneceu em silêncio.
Cássio ergueu os olhos.
— Agora só falta eu conseguir encontrar ela. Mas… — completou, com um amargor contido — eu não faço ideia de onde ela está.
O silêncio se estendeu um pouco mais do que o necessário.
Dorian fechou o notebook com calma excessiva.
— Bom… — disse, como quem comenta sobre o clima — eu não posso te dizer onde a Malu está morando.
Cássio piscou, confuso.
— Como assim não "pode"? Então você sabe onde ela está?
— Sei... Mas ela me pediu pra manter segredo.
A palavra "segredo" caiu pesada.
Cássio abaixou a cabeça, os ombros cedendo um pouco, como se aquele fosse o último golpe.
— Claro… — murmurou. — Faz sentido. Ela deve me odiar.
Dorian inclinou-se um pouco à frente.
— Nem sempre silêncio significa ódio. — disse. — Às vezes é só autopreservação.
Cássio assentiu, mas não parecia convencido.
— Eu só queria uma chance. — falou, quase para si mesmo. — Uma.
Dorian observou aquele homem que raramente demonstrava fraqueza. E, por um instante, deixou que ele sentisse.
Dorian não respondeu de imediato. Apenas fez uma pergunta simples:
— Quem é a assistente da Francine?
A resposta levou menos de um segundo para atravessar o cérebro de Cássio como um raio.
E quando atravessou…
O sorriso que se abriu no rosto dele foi imediato. Espontâneo. Quase infantil.
— …Malu.
Ele se levantou num salto, como se tivesse levado um choque.
— Filho da mãe… — murmurou, apontando o dedo para Dorian. — Você...
Pegou o celular no mesmo instante e discou para a secretária.
— Natália? — falou, já andando pelo escritório. — Preciso de uma passagem pra Nova York. Antes do Natal. Sim. Ida imediata. Não, não é viagem de trabalho.
Desligou e encarou Dorian, os olhos finalmente acesos.
— Obrigado.
Dorian deu de ombros, satisfeito.
— Não me agradeça ainda. — disse. — Vai lá consertar a merda que você deixou fazerem.
Cássio assentiu.
Dessa vez, ele não ia voltar sem uma resposta.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Beijada pelo Chefe no Baile de Máscaras