Os dias em Nova York começaram a passar de um jeito diferente para Malu.
A agenda continuava cheia demais para permitir grandes colapsos.
Chorar? Não.
Pensar demais? Também não.
Havia horários a cumprir, contratos para revisar, reuniões que precisavam começar no minuto exato.
E Malu fazia tudo isso como sempre fizera: com eficiência quase cirúrgica.
Organizava compromissos, antecipava problemas, respondia e-mails enquanto caminhava pelas calçadas geladas, o celular firme na mão, o casaco bem fechado até o pescoço.
Por fora, ninguém diria que algo estava fora do lugar.
Ela sorria quando era esperado, ria das piadas certas, comentava sobre o frio, sobre o trânsito, sobre a cidade iluminada para o Natal.
Mas, entre um compromisso e outro de Francine, era impossível não tentar colocar a cabeça no lugar.
E o coração também.
Em uma tarde especialmente fria, enquanto Francine estava em preparação para um desfile, Malu saiu sozinha até uma cafeteria próxima.
Precisava de café. Forte. Quente. Algo que mantivesse o corpo funcionando no mesmo ritmo da mente.
Ao atravessar a rua, seu coração quase saltou pela garganta.
Um homem alto, postura familiar, cabelos escuros… entrou no café segundos antes dela.
O mundo parou por um instante.
Malu acelerou o passo, dividida entre o pânico e uma expectativa que ela não queria admitir nem para si mesma.
Abriu a porta com mais força do que pretendia, e então viu.
Não era ele.
Era alguém completamente diferente.
O alívio veio acompanhado de um aperto estranho no peito.
O coração ainda batia rápido demais quando ela fez o pedido, a voz um pouco trêmula, as mãos quentes demais para o frio que fazia lá fora.
Pegou dois cafés por força do hábito, e saiu apressada, como se ficar ali por mais tempo pudesse denunciar algo que ela mesma tentava esconder.
No fundo, mesmo agora sabendo a verdade… ainda doía.
Mas não como antes.
Já não era a dor da traição.
Era outra coisa.
Culpa.
Por não ter confiado.
Malu pegou o aparelho quase sem perceber e, com o polegar hesitante, abriu a conversa que vinha evitando há dias.
A última mensagem ainda estava lá.
O pedido simples. O analgésico. O aviso da porta aberta.
— Como eu não desconfiei de nada? — sussurrou, mais para o vazio do quarto do que para a tela.
O dedo ficou suspenso sobre a conversa, a poucos milímetros de desbloquear tudo o que ela vinha evitando: explicações, provas, talvez desculpas.
Talvez verdades.
Talvez um recomeço.
Ou um novo erro.
Malu bloqueou a tela e deixou o celular de lado.
Virou-se na cama, puxando o cobertor até o queixo.
Não era medo de amar de novo.
Era medo de confiar… e errar outra vez.
E, naquele momento, por mais que a verdade estivesse ali, esperando por ela, Malu sabia:
Ainda não estava pronta.

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