Francine subia os degraus como quem apenas cumpria mais uma tarefa qualquer do dia — prendedor de cabelo torto, expressão levemente sonolenta, passos apressados.
Foi só erguer o rosto que ela quase perdeu o compasso.
Dorian descia os mesmos degraus, impecável em um blazer cinza escuro, camisa branca perfeitamente alinhada no colarinho e o perfume caro que parecia ter sido pulverizado no ar à volta dele.
O olhar dele encontrou o dela — e ali estava: o mesmo olhar calculado, de quem já sabia exatamente o que viria a seguir.
Um sorrisinho lento surgiu nos lábios dele, o tipo de sorriso que dizia “você não perde por esperar.”
Francine, no entanto, segurou firme. Ergueu o queixo e devolveu um olhar de total indiferença, como se ele fosse só mais uma planta decorativa no hall.
Mas por dentro? Uma sirene interna gritando “ferrou.”
Quando o viu sair pela porta da frente e entrar no carro com o motorista, soltou o ar dos pulmões que nem sabia que estava prendendo.
— Foi embora. Graças a Deus — murmurou.
Seguiu então para o corredor dos fundos, onde Denise organizava algumas tarefas com os funcionários.
— Já viu a escala de hoje? — Denise perguntou, casual, enquanto marcava algo no caderno.
— Ainda não. Por quê? — Francine respondeu, despreocupada.
— Sugiro que veja. Antes que seja tarde demais.
Com o cenho franzido, Francine se dirigiu ao mural na parede. Passou os olhos pelas planilhas da semana… até encontrar o temido “Quarto do Sr. Dorian”.
Ali, em letras perfeitamente visíveis:
Limpeza: Francine Morais.
Ela deu um passo pra trás como se alguém tivesse empurrado seu peito.
— Não. Denise não pode estar falando sério…
Mas estava. A escala tinha sido alterada — e só um ser na Terra tinha poder (e ousadia) pra fazer isso.
E ela sabia exatamente quem era.
Depois do almoço, com a barriga cheia e a coragem quase voltando, Francine respirou fundo.
Lembrou-se do blazer cinza, do carro saindo pela manhã. “Ele saiu. Tá tudo certo.”
Pegou seus panos de limpeza, prendeu o cabelo com o primeiro elástico que encontrou e seguiu em direção ao quarto de Dorian.
O corredor estava silencioso. Nem sinal de passos pesados ou vozes masculinas.

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