Alguns dias se passaram, e os “bons dias” de Dorian haviam deixado de causar espanto.
Agora, alguns funcionários até sorriam de volta, meio desconfiados, como se aquele comportamento gentil tivesse prazo de validade.
Denise, por outro lado, observava tudo com a atenção de quem já tinha visto de tudo naquela casa, mas nunca aquilo.
— E pensar que teve gente aqui que quase foi demitida — disse, enquanto passava por Francine, mas sem olhar diretamente para ela.
Francine suspirou, sem levantar os olhos.
— E pensar que teve gente aqui que queria me empurrar pra demissão — rebateu, no mesmo tom.
Denise riu baixo, como quem se diverte com o duelo.
— Não banque a vítima. Não combina com você.
Francine não respondeu. Só continuou organizando os talheres, mas apertando a colher com mais força do que deveria.
Mais tarde, Dorian atravessou o corredor principal com as mãos nos bolsos e um olhar decidido.
Encontrou Denise próxima à estufa de plantas da mansão, anotando algo no caderno de tarefas.
— Quero a Francine na escala de limpeza do meu quarto amanhã.
Denise ergueu os olhos, avaliando o pedido por um segundo.
— Vai ser só limpeza… ou devo colocar no cronograma como “treinamento intensivo”?
— Não começa, Denise.
— Só tô tentando ajudar na organização da casa — respondeu, com um sorrisinho provocador. — Mas tudo bem. Ela estará lá.
No dia seguinte Francine leu a escala do dia e parou por um segundo diante do nome dele.
"Quarto do senhor Dorian", dizia a planilha pregada no mural.
Ela soltou um risinho discreto, balançando a cabeça.
— Será que devo colocar o novo uniforme? — murmurou para si mesma, lembrando da última vez e sentindo o rosto esquentar sozinho.
Ela entrou no quarto com passos leves, sempre alerta. O cômodo estava silencioso e vazio, o que a fez soltar uma respiração mais tranquila.
Mas assim que a porta se fechou atrás dela, ouviu o clique suave da porta do banheiro.
Francine virou-se devagar.
Francine mordeu discretamente o lábio inferior, disfarçando um sorriso. Manteve os olhos focados no trabalho, mas com muito esforço.
O perfume dele, inconfundível, invadiu suas defesas e a arremessou direto para as lembranças da noite que ela fingia esquecer.
Dorian se acomodou numa poltrona como um rei no trono. E dali, observava. Em silêncio, com os olhos atentos a cada movimento dela.
Era quase como se estivesse assistindo a um espetáculo particular.
Francine limpava a poeira da cômoda com calma, fingindo que não percebia. Mas percebia. Cada olhar dele. Cada suspiro.
Foi quando a voz grave cortou o ar com uma naturalidade desconcertante:
— Você desistiu mesmo de ser modelo?
Ela parou por um segundo, segurando o pano no ar.
Aquilo era uma pergunta casual demais para ser inofensiva.
Francine virou-se devagar, o olhar afiado e cheio de camadas.
— Desde quando isso te interessa?

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