Francine entrou na cozinha e jogou o pano de prato sobre a bancada com mais força do que o necessário.
— Malu, eu preciso descobrir o que o Dorian tá tentando fazer.
Malu, que mexia o café como quem fazia um feitiço, não tirou os olhos da xícara.
— Fiquei sabendo que ele deu bom dia até pras plantas hoje, né?
— Que espécie de maluco ele virou?
— Culpa sua! Não foi você que deixou o homem louco ontem no quarto?
Francine arregalou os olhos e logo desviou o olhar, como se a própria memória fosse indecente.
A imagem dele no chuveiro voltou com nitidez quase cruel — a água escorrendo pelos ombros largos, os músculos tensionados... e, mesmo debaixo d’água, dava pra perceber exatamente o que ela tinha provocado.
Cobriu os olhos com uma das mãos, como se isso pudesse apagar a lembrança.
— Achei que o banho fosse suficiente pra acalmar ele... — murmurou, meio rindo, meio querendo sumir do planeta.
— Pelo visto o choque foi demais. — Malu se encostou na pia com um sorrisinho sacana. — Tá tentando ser príncipe encantado agora?
— Príncipe? Ele parece mais um vendedor de cursinho motivacional. Me olhou hoje como se eu fosse… uma santa.
— E você sentiu o quê?
Francine desviou o olhar, fingindo varrer uma migalha invisível da bancada.
— Senti que ele não b**e bem da cabeça.
— E que você não escapa viva dessa guerra — completou Malu, rindo. — Cuidado, amiga. Quando um predador aprende a usar flores no lugar de garras... o bicho pega.
Francine soltou um suspiro fundo.
— Então é isso? Vai ser fofura agora?
— Até você morder a isca — Malu disse, piscando. — E acho que ele tá caprichando no anzol porque você tá caindo direitinho.
Francine olhou pela janela da cozinha, onde Dorian cruzava o jardim falando ao celular, um sorriso discreto nos lábios.
Ela bufou.
— Desgraçado. Ele sabe jogar.
— E você sabe cair. Vai ser lindo de ver.
A manhã ainda corria solta, e Dorian entrou no escritório bem humorado como nunca.
Durante a reunião com o setor de expansão, ele corrigia gráficos com mais paciência, fazia observações com aquele brilho sagaz nos olhos que não aparecia há dias e, para o espanto de todos na sala, chegou a fazer uma piada.
Cássio, sentado ao lado, apenas observava.
Assim que os funcionários saíram, Dorian girou a cadeira em direção a ele com um meio sorriso.
— Cássio, você é um gênio.
— Agora você planta mais dúvida. Puxa a cadeira, elogia o perfume, finge interesse em coisas que ela não quer que você perceba.
— Você quer que eu vire um bajulador?
— Não. Quero que você seja o Dorian Villeneuve que ela não conhece. Isso vai bagunçar a cabeça dela. Ela vai esperar um ataque e receber um convite pra jantar. Vai achar que é um plano e vai acabar tropeçando sozinha.
Dorian pensou por um segundo, cruzando as pernas com calma.
— Um convite pra jantar?
— Por que não? — Cássio ergueu uma sobrancelha. — Um jantar, ou uma pergunta casual sobre o passado dela, talvez elogiar a postura… você planta a dúvida, mas com requinte.
Dorian riu, aquele riso que vinha do ego.
— Ela vai desconfiar.
— E é isso que você quer. Você quer que ela fique tão ocupada tentando entender suas intenções que acabe revelando as dela.
— Você devia ser estrategista político.
— Eu prefiro ver você perder a cabeça por uma garota com espanador.
— Isso nunca vai acontecer. — Dorian disse isso enquanto ajeitava a gravata.
Mas Cássio sabia que era exatamente o contrário. Ele já tinha perdido a cabeça.

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