O sorriso surgiu antes mesmo dela conseguir conter. Automático, bobo, sincero.
Malu, que já observava tudo de camarote, apontou a colher como se fosse um microfone:
— Pelo visto a fila andou, né?
Francine tentou disfarçar, mas a tentativa foi patética.
— Que fila, menina? Tá doida.
— Ah, claro. Você só sorri assim quando o crush manda “bom dia”. Se fosse notificação do banco, cê tava bufando. — Malu estreitou os olhos. — É o Dorian, né?
Francine não respondeu, mas a covinha na bochecha entregava tudo.
— Eu sabia. Desde aquele dia que você fez panqueca e deixou queimar porque tava rindo sozinha no celular. Desde ali eu sabia.
— Malu, não é nada demais.
— Uhum. Você só tá com o brilho no olho de quem não sente mais raiva ao ver cueca na pia.
Francine gargalhou e largou o celular na mesa.
— Você vai me zoar muito se eu disser que... gosto de conversar com ele?
— Só até a eternidade — respondeu Malu, levantando da cadeira com a xícara na mão. — Mas pode ficar tranquila. Se ele for um babaca, eu mesma coloco um laxante no café dele.
Francine riu, pegou o celular de volta e respondeu Dorian, os dedos deslizando com rapidez, como quem não precisava mais esconder a leveza que ele trazia.
Ao mesmo tempo, no escritório, Cássio empurrou a porta da sala de Dorian com o ombro, equilibrando uma pasta abarrotada de documentos na mão esquerda e dois cafés na outra.
Tinha passado a manhã toda em reunião com um possível novo parceiro comercial — e precisava desesperadamente de cafeína e ar-condicionado.
Encontrou Dorian sentado à mesa, o laptop aberto, papéis espalhados... mas nenhuma digitação, nenhuma ligação.
Só ele, encostado na cadeira, encarando o celular com um sorrisinho digno de propaganda de pasta de dente.
— De quantos milhões foi esse contrato que você fechou pra estar sorrindo assim? — Cássio perguntou, largando os papéis com um thud leve na mesa de reunião.
Dorian sequer desviou o olhar da tela. Respondeu ainda sorrindo:
— Na verdade esse contrato me custou apenas um iPhone. E algumas mensagens.
Cássio arqueou uma sobrancelha.
— Uma mensagem? Você tá rindo sozinho pra uma mensagem? Cara, isso é inédito. Se eu não te conhecesse, diria que tá apaixonado. Mas como eu te conheço... com certeza você está apaixonado.
Dorian finalmente largou o celular na mesa, mas o sorriso não sumiu.
— Ela respondeu.
— Francine?
Sentou na mesa de sempre, próximo à janela, e pediu o mesmo de sempre: filé ao molho de vinho com purê trufado. O garçom mal tinha se afastado quando o celular vibrou sobre a toalha branca.
Francine.
O nome dela acendeu no visor e um sorriso se insinuou no canto dos lábios dele, confiante. Finalmente, ela ia ceder.
Tinha certeza de que a saudade estava batendo. Pegou o aparelho com uma pressa contida e abriu a mensagem, o peito inflando de expectativa.
“Oi, Natan. Eu achei que a mensagem era de outra pessoa, por isso respondi. Sobre o presente… foi gentil, mas desnecessário. A gente terminou, e eu tô em outro momento agora. Espero que você entenda e siga em frente também.”
O sorriso dele evaporou.
Fechou os olhos por um segundo, encostando as costas na cadeira.
O barulho ao redor pareceu sumir, substituído por um zunido surdo, como se o orgulho ferido tivesse bloqueado a audição. As palavras ficaram gravadas como um carimbo em brasa:
“Desnecessário.”
“Tô em outro momento.”
“Siga em frente também.”
A mandíbula dele travou.
— Gentil, mas desnecessário... — repetiu em voz baixa, quase como se testasse o gosto da frase na boca. — É sério isso?

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