Era início da tarde e o sol filtrado pelas cortinas finas deixava a sala de descanso com cara de preguiça.
O ambiente, um dos poucos cômodos da mansão destinados ao uso livre dos funcionários, era pequeno, com um sofá encostado à parede, duas poltronas de tecido surrado e uma estante com livros antigos e jogos de tabuleiro que ninguém ousava tocar.
Francine estava ali sem pressa, no seu dia de folga, deitada no sofá com uma almofada improvisada sob a cabeça e o celular em mãos.
O som da notificação fez sua barriga gelar antes mesmo de ver o nome.
Natan.
Ela hesitou, mas clicou.
“Que pena, não queria te incomodar, de verdade.”
“Só senti que depois de tudo o que vivemos, você merecia algo à altura.”
“Mas tudo bem, se você acha que encontrou algo melhor, vou respeitar.”
“Só fico triste por perceber como você se tornou alguém que responde com frieza um gesto sincero.”
“Mesmo que não queira mais saber de mim, eu continuo torcendo por você. Sempre.”
Francine soltou um suspiro, longo e exausto, enquanto revirava os olhos e a alma.
— Ele não muda — murmurou, mais pra si do que pra alguém.
Como se invocada por telepatia, Malu apareceu na porta da sala com um pacote de biscoitos na mão.
— O quê? O Dorian mandou outro emoji sem contexto?
— Pior. O Natan me enchendo o saco.
Malu entrou, se jogando na poltrona mais funda.
— E o que ele quer agora? Pagar a terapia retroativa?
Francine riu, sem humor.
— Aquela velha manipulação disfarçada de saudade. Só faltou dizer “a culpa é sua por eu ser um babaca”.
Ela passou os olhos novamente pela mensagem, sem clicar em responder.
— Os momentos bons com ele até existiam — confessou —, mas os ruins... Eram insuportáveis. Ele me sufocava.
— E você se culpava por não conseguir respirar — completou Malu, abrindo o pacote.
— Exatamente.
Francine encarou o celular por mais alguns segundos, depois bloqueou o número com a naturalidade de quem já apanhou demais.
— Eu não sou obrigada a ler isso — decretou, largando o aparelho no colo.

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